O CINEMA

Fernando Pinto de Carvalho

O primeiro cinema da cidade foi construído pelo Sr. Manoel Pinto, natural do município e, na época, rico empresário. Ele não poupou dinheiro e construiu um prédio moderno e muito bom, levando-se em consideração que, na época, não havia nem iluminação pública na cidade. Tinha palco para teatro, lanchonete, sala para máquinas cinematográficas e galerias suspensas onde os espectadores pagavam ingressos mais baratos, porém assistiam os filmes "em pé", pois lá não havia cadeiras. O local era chamado de "galinheiro". No salão principal havia poucas cadeiras e os frequentadores podiam levar as suas e, assim, obter descontos no valor do ingresso.

Muitos anos depois de construído, os cupins estragaram as madeiras, as paredes começaram a apresentar infiltrações e o cinema foi transferido para um prédio grande adaptado para isso, localizado na Avenida Getúlio Vargas, a principal da cidade. Quando isso aconteceu o proprietário do cinema já era o meu irmão Bertinho.

A propaganda dos filmes era feita de uma maneira muito peculiar e interessante. Em armações da madeira e compensado colávamos as fotos de divulgação fornecidas pelas distribuidoras dos filmes e, com tinta azul xadrez, escrevíamos o nome do filme e dos artistas principais e uma frase copiada dos folhetos de divulgação. As armações, que chamávamos de "tabelas", eram colocadas em pontos estratégicos da cidade. Quando o filme era famoso e caro fazíamos uma propaganda mais agressiva. Oferecíamos ingressos gratuitos a dois garotos para que eles andassem por toda a cidade, com as "tabelas" nas costas, batendo um martelo na enxada de ferro que fazia um barulho enorme. Era cinema cheio na certa. Tínhamos grande cuidado para não desmoralizar a propaganda e só mandávamos "bater enxada" quando o filme era bom mesmo.

A propaganda também era feita pelo Serviço de Alto-Falantes do cinema. Uma vez, atuando como locutor, fiz uma grande bobagem. Alguns filmes não traziam prospectos de divulgação e quando isso acontecia a gente usava textos dos folhetos de outros que já havia sido exibidos e pertenciam ao mesmo gênero (cowboy, por exemplo). O filme daquele dia trouxe apenas uma foto onde se via um homem com roupas de cowboy e um revólver na mão. Eu não tive dúvida e peguei uma frase de outro filme que dizia: "naquelas plagas o ruido das balas era o único som que se ouvia". O povo era louco por filme de cowboy, de ação e com muitos tiros. Com uma propaganda daquelas não deu outra, o cinema ficou lotado. O filme começou a ser exibido e o pior aconteceu. Era chatíssimo, lento e não tinha ação nem tiros. O único tiro aconteceu já no seu final, quando um homem fantasiado de cowboy para ir a um baile à fantasia, disparou o revólver de brinquedo que usava. Assim se fosse verdade que "o único som que se ouvia naquelas plagas era o ruido das balas" o filme seria mudo. Quando o filme terminou só havia dois pacientes ou dorminhocos (quem sabe?) espectadores. Mesmo assim eu fiquei esperando eles sairem para não ter que dar explicações sobre os motivos que levaram os atores a desmoralizarem a minha propaganda.

Havia apenas uma máquina para exibição dos filmes e quando ela quebrava precisava ser consertada na mesma hora para não termos de devolver o valor dos ingressos, pois o tempo de permanência do filme na cidade não permitia que a exibição fosse feita no dia seguinte. O Bertinho era perito em consertar rapidamente a máquina. Ele desmontava, descobria o defeito e consertava em menos de dez minutos. Quando surgia um defeito o
público não se incomodava pois sabia que dentro de poucos minutos tudo estaria normalizado. Um dia porém, o defeito não apareceu aos olhos do bem treinado proprietário e operador. Depois de uma hora de intervalo o público começou a ficar inquieto mas ninguém se retirou da sala nem fez qualquer protesto. No meio da platéia estava um forasteiro que, sem entender porque o público ficava calado diante daquela demora, começou a gritar: -"Meus quinze!!!", "Meus quinze!!!". Quinze era o valor do ingresso (quinze cruzeiros). O Bertinho já irritado porque daquela vez o defeito estava desafiando a sua perícia, não se conteve e desceu as escadas rapidamente em direção aos irritantes gritos de "meus quinze". Quando vimos que ele estava indo a procura do rapaz que protestava, fomos para lá também e foi tanto tapa e empurrões que o rapaz deve ter levado bem mais do que os quinze que estava pedindo. É... parece que lá, naqueles tempos, não havia direitos do consumidor não...

Para agradar o filme devia ter muita ação. Os preferidos eram os de cowboy, de piratas, de aventuras e de Tarzan. Os astros preferidos eram Errol Flynn, Antony Quynn, James Cagney, Alan Ladd, Gary Cooper, Humphrey Bogard e John Wayne. As artistas eram Alex Smith, Bárbara Stanwick e Ann Sheridan. Os filmes franceses e italianos não proporcionavam boas bilheterias. Mexicanos só os musicais de Ninon Sevilla e Maria Antonieta Pons. Os nacionais só as chanchadas musicais. Toda sexta-feira santa era exibido o filme "Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo", com casa lotada. O Bertinho chegou a comprar um lote de filmes velhos a um distribuidor mineiro, só porque entre eles estava uma cópia do filme da Paixão de Cristo. Depois de exibi-lo mais de vinte vezes, o Bertinho vendeu o lote de filmes, praticamente imprestáveis, a um grupo de ciganos, em cinco prestações iguais,
sabendo que só receberia a primeira pois os ciganos, certamente, não voltariam a cidade para pagar as outras.

Os filmes vinham e voltavam de trem que era o único meio de transporte regular entre Salvador e Itiúba. Por semana havia apenas duas viagens de ida e duas de volta, porisso o filme, às vezes, tinha que ser devolvido no mesmo dia em que chegava. O trem que ia para Salvador passava na cidade às 22h30min e a exibição terminava as 22h. Como a estação ferroviária ficava próxima ao cinema, normalmente dava tempo de embarcar o filme. Quando acontecia um imprevisto ou quando o filme era muito grande éramos forçados a retirar partes do filme e surgiam problemas comprometendo a sua história. Pior era quando trocávamos os carretéis e exibíamos o terceiro antes do segundo. Pessoas que já haviam morrido apareciam vivas. Casados de repente apareciam ainda jovens e namorando. Felizmente isso aconteceu poucas vezes.

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. Carvalho
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