O MOTOR DA LUZ

Fernando Pinto de Carvalho

A energia elétrica da cidade era fornecida por um motor-gerador Caterpilar movido a óleo diesel, que, por motivo de economia, só funcionava das 18h às 22h. Isso fazia com que os poucos habitantes possuidores de rádios, ficassem esperando, ansiosamente, as 18h para ouvirem a Rádio Sociedade da Bahia, em Ondas Medias, ou a Rádio Nacional do Rio de Janeiro, em Ondas Curtas.

Quando o Caterpilar quebrava, ficávamos sem energia elétrica por muito tempo, até que o Sr. Antônio Mota, mecânico responsável pela sua manutenção, verificasse quais as peças que estavam defeituosas. Algumas vezes havia necessidade de solicitá-las a fornecedores de São Paulo e isso demorava bastante, naquele tempo. Quando elas finalmente chegavam, depois de dois ou três meses, ficávamos dependendo da excessiva calma do Sr. Antônio Mota. Algumas pessoas, chateadas com a demora, diziam que ele era um sádico e sentia prazer em retardar o conserto do motor, somente para ver a decepção e a tristeza nos rostos dos habitantes da cidade, principalmente quando ele dizia que só teríamos energia elétrica "daqui a seis meses". Outros diziam que havia uma combinação entre ele e o Prefeito para retardar o início do funcionamento do motor, para diminuir o prejuízo que a Prefeitura tinha com o fornecimento de energia cara, à base de óleo diesel.

Havia, também, aqueles que diziam que só havia conserto rígido quando o Sr. Manoel Barbosa, sogro do Sr. Antônio Mota estava na cidade. Contavam que ele, depois de alguns dias sem energia elétrica em sua casa, ia a "usina" e dizia ao genro: " - Hoje, às 18h, eu vou sentar na varanda da minha casa e quero ler o jornal com luz elétrica". Misteriosamente, naquele dia tudo dava certo na oficina e o motor voltava a funcionar.

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