O MAGO E A MARRETA

Ivan de Carvalho

 

 

João Carlos e Solon eram dois irmãos que moravam na Praça Nova, no lado fronteiro à barriga de Ramirão.


O coronel Ramiro era a pessoa mais barriguda de Itiúba. Hoje se diria que sofria de obesidade mórbida. Seu deslocamento, mesmo no limitado espaço do lar, era certamente tão complexo que mandara armar sua ampla cama na sala de visitas, o que lhe permitia apreciar o movimento na rua através da porta sempre escancarada, receber eventuais visitas e ficar no lugar mais fresco da casa, tudo isso sem precisar abandonar o conforto do leito.

Sobre a cama, durante seis dias por semana, vestido com uma calça de pijama e, por causa do calor, sem nada que o cobrisse da cintura para cima, derramava a pança impressionante e sob ela, a cama, cuidava de que sempre houvesse um penico, tipo universal daquele tempo, branco esmaltado. Era, o penico, uma espécie de peça do mobiliário, estava ali para ser visto, mas não para ser usado, salvo no recato da noite ou da sala raramente fechada durante o dia. Ele era, podia-se notar a 70 metros de distância, uma pessoa severa, de costumes ídem.

No sábado, era o sétimo dia. Ao contrário de Deus, que no sétimo descansou, o coronel Ramiro levantava-se. Afinal, descansara nos outros seis. Na parte da manhã, ainda que não muito cedo, vestia um terno impecável de excelente linho branco, calçava sapatos brilhantes, empunhava um guarda-chuva que jamais abria – pois sempre fazia um sol de lascar e o sol uma vez por semana ele não temia – e o usava como bengala, embora, uma vez tomado o prumo, mantivesse um passo surpreendentemente firme.

Atravessava, garboso e lento, a Praça Nova, avançava resoluto pela Avenida Getúlio Vargas, onde, finalmente, adentrava a loja de tecidos e chapéus de Augusto Moura, amigo e chefe político da UDN e da oposição, de quem certamente ia ouvir novidades e planos e a quem naturalmente dispensava os seus conselhos. Algum tempo depois, com a mesma dignidade, quase digo majestade, o mesmo passo resoluto e o mesmo olhar altivo, voltava para sua casa, sua rotina, sua cama.

Ah, sim! Desculpe o devaneio. João Carlos e Solon. João Carlos era o mais velho, uns 14 anos, Solon tinha uns 12, imagino. Haviam se deliciado com os espetáculos de um circo mulambo que passara em Itiúba. Especialmente os impressionara uma exibição de hipnotismo e magnetismo. Foi embora o circo, ficaram eles e fizeram saber a uma dezena de amigos e conhecidos que dariam “uma demonstração”.

Tudo pronto, João Carlos deitou-se no chão (terra ou grama) de uma casa em ruínas na Praça Nova, Solon cuidadosamente colocou-lhe um tijolo sobre o peito, apanhou uma marreta daquelas grandes, de ferro com sólido cabo de madeira, levantou, gritou “hipnotismo e magnetismo” e mandou ver. A marreta partiu o tijolo em vários pedaços.

– Ôôôô, Solon!...Precisava bater com tanta força?... – murmurou, pensando berrar seu protesto, mas sem nenhum fôlego, o ator semi-esmagado. E Solon ainda teve ânimo de justificar-se:

– Mas você não disse que era pra quebrar o tijolo?!...
Uns dez minutos depois, João Carlos tomou coragem e levantou-se. Mercê de Deus, só o tijolo se quebrara.

 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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