I

JOÃO DO BODE

Max Brandão Cirne

 

 

     

 

Era um negro alto esguio e forte, de quase dois metros de altura. Morava na Rua do Corte, que nada mais era do que um amontoado de infames barracos, se assim se pode chamar, na periferia da pequena cidade de Itiúba. Era um exímio fabricante de pentes de chifres de bois, colheres- de-pau ferro além dos famosos e burilados tabaqueiros, também feitos de chifres de bois. Os vendia andando na feira que acontecia uma única vez na semana, durante o sábado. Sustentava sua família com seu artesanato artisticamente trabalhado.

Fui colega de escola de duas de suas filhas, uma alta e esguia, a outra menor. Sofreram muito em nossas mãos. Eram negras retintas e muito nos azucrinamos suas vidas pondo apelidos nada lisonjeiros e até discriminando suas condições de pobres e moradoras afastadas. A maior era muito calma e jamais respondia às nossas perversas provocações. A menor, porém, era valente e muito corajosa muitas vezes nos pondo para correr mesmo.
         

Hoje fico a me perguntar aonde foram aquelas meninas, e, de como gostaria de encontrá-las para pedir-lhes perdão e desculpas. É certo que se tratava muito mais de coisas de crianças entre nove e doze anos, mas que incomodava, incomodava sim. Ainda que algum ranço de maldade e covardia passasse pelos nossos corações não tão inocentes mesmo para a época.
       
Sai muito cedo da cidade, cerca de 10 aos 14 anos para estudar e seguir a vida. Perdi-me do seu João do Bode. Seu olhar era de um homem triste. Usava uma barbicha, certamente por falta de aparelho de barbear e por não poder comprar nem pagar os serviços de um barbeiro. Não era desleixo, era ausência de condições financeiras. Não precisava ser economista para saber que aquela família passava sérias privações, a começar pelas fardas surradas e velhas que suas filhas usavam na escola.
         
Ano passado em visita a capital do Salvador, uma minha irmã disse-me ter encontrado a mais alta que se casou com um milionário e vivia muito bem postada na vida. Que Deus esteja com ela e a abençoe e possa nos perdoar pelas maldades que nós crianças, colegas de escola, fazíamos e fizemos com as duas. O pai já deve ter morrido. Não sei onde, pois, quando tomei conhecimento da sua existência, já era um homem beirando mais de quarenta e cinco anos de idade, aparentemente.
 
Raramente quando compareço em Itiúba, tenha a vaga impressão de estar vendo aquele homem postado, como ficava dia de sábado, nas calçadas da cidade a oferecer os pequenos artefatos artesanais, de uma beleza fenomenal, aos seus clientes e compradores.
         
João do Bode era uma figura fenomenal, um anônimo que a vida lambeu e escondeu.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho


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