A Festa do Calumbi

Valmir Simões



Em Itiúba, como em toda pequena cidade do interior, a juventude aguardava, com ansiedade, os finais de semana para se divertir e fugir da rotina. Eu e meus amigos adorávamos um arrasta-pé lá “pras” bandas do Calumbi. Quando chegávamos a esses locais recebíamos um tratamento diferenciado e éramos tratados sempre pelo nome próprio acompanhado da palavra “filho de fulano”.

Um local que não ficava nenhum sábado sem uma festa era a casa do Tonho do Inocêncio, localizada na entrada que dava acesso ao Calumbi. O salão de dança improvisado ficava na marcenaria do Tonho. Na área ao lado da casa ficava um amontoado de madeira que era a matéria prima do seu trabalho.

A noticia sobre a realização dos bailes se espalhava logo junto à rapaziada: “olha turma neste sábado o forró vai comer sem ter hora para acabar na casa do Tonho”.

A casa era muito apertada e não tinha luz elétrica. Para se deslocar até o balcão das bebidas tínhamos que passar meio de lado e pedindo licença. Mas o sacrifício tornava-se muito compensador, pois o namoro no meio do monte de madeira era muito bom. Na casa, no quintal e no monte de madeira, ninguém enxergava ninguém, era uma maravilha.

Cerveja não existia, predominava no bar as misturas de cachaça com raízes e folhas (Milome, Pau-prá-tudo, Jatobá, Folha de Figo, etc.). O Cinzano e a cachaça juntos formavam o “Rabo de Galo” que era muito apreciado pela rapaziada.

Em um desses sábados a festa rolava tranquilamente quando apareceram por lá alguns bêbados (aqueles de final de feira que não acertavam o caminho de casa) e, por azar, um deles procurou confusão com o Teteiro (vaqueiro do Sinhozão), por causa de uma moça que não aceitava dançar com ele naquelas condições, mal ficando em pé. Num certo momento da confusão o Teteiro arrastou um enorme facão e riscou no cimento do salão, saindo um clarão, como uma enorme língua de fogo, foi um horror! Todo mundo querendo sair ao mesmo tempo por uma porta só. Numa dessas, empurraram o

Pedrinho Capitão e ele foi ao chão ralando os joelhos e os cotovelos. Ninguém sabia onde foram parar as “namoradas”.

O sanfoneiro, que era o próprio Tonho dono da casa, apartou a briga e deu por terminada a festa que até aquele momento transcorria tão bem, principalmente para nós que já estávamos com as namoradas no depósito de madeira.

 

SOBRE AS FESTAS DE ITIÚBA LEIA:
- O BOI DA TAPERA (pág.38) - Fernando P. de Carvalho
- A FESTA DA PADROEIRA (pág. 95) - Djalma dos Anjos
- O JARAGUÁ (pág.101) - Valmir Simões
- A FESTA DO CASAMENTO (pág.103) - Valmir Simões
- A PROCISSÃO (pág.135) - Fernando P. de Carvalho

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