I

ITIÚBA, MULAS DE PADRES E LOBISOMENS

Max Brandão Cirne

 

 

     

A década, se a memória não nega, era a de “70”. Lobisomens, mulinhas, assombrações diversas povoam o mundo de Itiúba. Não existia luz elétrica enquanto a geração do tempo acostumou a se ver às escuras quando o velho Caterpillar a diesel, renitente e teimoso, desafiando o velho Mota, seu mecânico exclusivo, se negava a continuar batendo suas bielas, a iluminar a cidadezinha, deixando, muitas vezes, por vários meses, a cidade de Itiúba completamente às escuras.
    
 Era a deixa, a ocasião propicia para as mulas de padres e os lobisomens povoarem, cruzarem e se entregarem aos amores pecaminosos do outro mundo, tempos de assombração, de medo e de terror para o sertanejo. Um mal indisfarçável pavor tomava conta de todos se a coincidência fosse durante a chamada semana santa.
    
Essa tradição da mula sem cabeça a espojar-se nos esponjeiros dos animais nos campos, veio, certamente da Europa, criação do catolicismo para denunciar e amedrontar padres que mantinham relações sexuais com mulheres casadas ou não, quebrando o voto de celibato. O lobisomem foi, também, criação da mesma igreja católica para amedrontar as pessoas que não promoviam o batizado dos seus filhos no rito católico, deixando-os pagãos. Para que apressassem os óbolos (dinheiros) para as burras da igreja católica, era necessário dar uma mãozinha na fé daqueles católicos um tanto incrédulos, amedrontados, supersticiosos e até mesmo de pouca fé.
    
Mas nos sertões, durante a semana santa era época de festas para a saída dos lobisomens e das mulas sem cabeça. Os cães ladravam a noite toda e as histórias se multiplicavam com os pais plantando no universo daquelas pequenas mentes o medo, o terror e o pavor, reviventando e relembrando os terrores dos infernos e da condenação eterna. As pessoas ficavam dentro de casa amedrontadas e apavoradas, não deixavam seus filhos saírem enquanto as histórias revividas voltavam ao medievalismo, coroavam as histórias de pleno êxito, e preparava os casais  amasiados e em pecado, em amancebamento, ao casamento católico. Sim, o casamento civil era condenado pela igreja católica e, único que tinha valia era o casamento eclesiástico, rendendo-lhe dinheiro para a celebração, já que o comercio sempre foi prática corriqueira que terminou por apressar um pouco as práticas do, uma vez que a república só passou a ser aceita pelo Vaticano, na década de 1970 em diante.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho


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