I

PEDRA BENÇA-MEU-TIO

Max Brandão Cirne

 

 

  
 Assim era conhecida a famosa pedra por onde corriam mocós e preás no silencio daquela parte da caatinga de Itiúba. Não se conseguiu até o momento, uma explicação convincente acerca do seu nome. Mas era assim mesmo conhecida de todos. Era um pedra com partes cavernosas e outras lisas, que  dizia as pessoas, resultado da urina dos roedores. Para termos acesso ao pedregulho, primeiro entravamos pelo pasto de Dona Belinha, lá no Alto, ate chegarmos a Fazenda Saquinho de pertencimento do Senhor Casé, hoje falecido.
        
No tempo da meninice parecia o fim do mundo em distancia. De fato a cidade era uma pequena mancha distante na medida em que nos afastávamos, e, mesmo de cima da pedra a cidade ainda parecia ficar muito longe.
        
Os meninos que moravam na cidade tinham acesso mais próximo, embora paralelo e, muitas moças iam ali escondidas para namorar  rapazes do seu tempo. Dizia-se que muitas perderem virgindades e terminaram por se casar na marra, que era assim que se fazia nos sertões. O cara visitava a roça antes do tempo, mas inapelavelmente tinha de ficar com a roça para sempre, se bem me entendi. Não tinha essa de facilitar a vida dos malandros.
         
Os meninos do meu tempo iam ali com segundas e terceiras intenções, nas intenções redobradas e almejadas, as mais escabrosas e inconfessáveis, também impublicáveis, de modo que, não querendo ser “entreguista” garanto que todos os itiubanos (itiubenses), no mínimo cometeram o antigo e secular “costume solitário”, não tão solitário como se pode imaginar. Acho que era por esses motivos certamente que lá não existiam boiolas nem gays nem efeminados. Hoje virou uma peste! Lésbicas e boiolas se encontram pelas praças dando sopa e falando das suas amenidades. Lamento que dentro em breve, homens e mulheres, ou seja, machos e fêmeas, namorando, e, se dando as mãos, serão presos e processados!

A pedra Bença-meu- tio continua lá, porém desfigurada. A cidade avançou, construíram casas sobre ela, os meninos não mais a visitam, ela “andou” para dentro da cidade, está cercada de casas habitadas por adultos que não conheceram a famosa pedra reduto das nossas infâncias. Verdadeiro ícone das nossas adolescências.


 

 

 

 

                                                                                                    

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho


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