I

0 JEGUE

Fernando Pinto de Carvalho

 

 

  
 

 

 

Volto a falar sobre o paciente e laborioso jegue. Para quem nasceu e cresceu no interior da Bahia, o nome certo e único para esse grande colaborador e companheiro do sertanejo daquele tempo é jegue mesmo e não jumento ou asno. Embora essas designações não estejam erradas, esse foi o nome que sempre usamos por lá e não vamos trocá-lo agora só porque o animal já não é tão importante como antes.

Ele era o único meio, usado pelos moradores do interior do município, para transportar os produtos agrícolas à feira livre realizada aos sábados na avenida principal. No dia da feira, bem cedo, víamos dezenas de jegues chegando ao local da feira, com os seus caçuás carregados de frutas, farinha, feijão, legumes, galinhas, perus, porcos e tudo mais que era comercializado na farta e barata feira da cidade. Na volta,  no fim da tarde, os caçuás levavam as compras feitas pelos proprietários dos jegues nos estabelecimentos comerciais. Como a quantidade de mercadorias compradas era menor e mais leve do que a que trouxeram para vender, os proprietários, às vezes, voltavam montados nos jegues que haviam passado o dia inteiro amarrados em alguma cerca nas proximidades da feira. Havia até aqueles que, depois de vender os seus produtos, bebiam muito e dormiam em cima dos jegues enquanto esses os conduziam às suas residências, baseados apenas no costume, pois faziam o mesmo trajeto no mínimo uma vez por semana. Um dos locais onde os jegues ficavam amarrados enquanto os seus donos vendiam as mercadorias ficava no fundo da casa do meu pai, na rua Cel. Manso Sampaio. Ali ficavam dezenas de animais amarrados na cerca do terreno pertencente à casa paroquial, sem comer e sem beber durante o dia todo.

Havia um senhor, chamado de Santana, que tinha uma grande quantidade de jegues utilizados no transporte de areia, barro, cimento, pedras, tijolos, adobes e outros materiais de construção. Parece-me que ele não tinha local apropriado para deixar os animais e à noite deixava-os soltos nas ruas e, no silêncio da madrugada, ouvíamos o barulho dos chocalhos por toda cidade. Além disso, quando os jegues envelheciam e não suportavam mais o peso das cargas, eram soltos na cidade para se alimentarem da vegetação que crescia nas ruas não pavimentadas.

Minha mãe, que não perdia a oportunidade de ganhar um dinheirinho extra, contratava homens, chamados de aguadeiros, para  pegar água nas cacimbas das proximidades, nos barris transportados pelos jegues,  e vendê-la nas casas residenciais e comerciais da cidade.

Não podemos esquecer também as tradicionais e divertidas corridas de jegues realizadas nas festas de largo. Sempre havia um jegue que, espantado com a multidão e o barulho, teimava em não sair do lugar na hora da partida e o seu cavaleiro (ou será jegueiro?) era vítima de gozações dos presentes.

Luiz Gonzaga, em  uma de suas belas composições, não teve vergonha de afirmar que "o jegue é nosso irmão". Pois bem, quando ele deixou de ser tão útil quanto era, foi abandonado pelos seus "irmãos". Chegou-se ao ponto de sacrificá-los para vender a sua carne aos japoneses que, dizem, transformava-a em comida para cachorros vendida no mundo inteiro. Em Senhor do Bonfim, cidade vizinha, tinha um desses matadouros que quase exterminaram a espécie na região.

Claro que a afirmação do grande cancioneiro nordestino é uma metáfora expressando a estreita ligação entre o homem do campo e o animal, mas que o jegue merecia mais estima e respeito, mesmo depois que foi substituído pelos veículos motorizados, merecia.

                                                                                                

                                                                                             

 

                                                                                                    

 

 

 

 

 

 

 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho


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