O Enterrado

Fernando Pinto de Carvalho

 

 

Os familiares chamavam-no de Zequinha, mas para todos habitantes da cidade ele era o Enterrado. Não sei exatamente o motivo do apelido, mas acredito que ele surgiu de uma característica física: o seu pescoço era pequeno dando a impressão de que a sua cabeça estava enterrada no corpo.


Era um tipo engraçado que fazia piadas com os acontecimentos e mazelas da vida. Lembro-me que numa época em que foi ajudante da “fubica” da Prefeitura (uma camioneta velha, caindo aos pedaços que servia a Prefeitura transportando quase tudo) quando alguém pegava carona na estragada carroceria, ele, fazendo gozação, a todo o momento pedia desculpas pelos muitos tombos que o velho carro dava nas ruas esburacadas da cidade. Como a velocidade máxima da “fubica” era de 20 km por hora, ele dizia sempre:

─ É melhor chegar tarde em casa do que cedo no cemitério.

Antes ele trabalhou como “aguadeiro” (transportador de água em jumentos) para minha mãe e era muito ligado aos meus irmãos, principalmente ao Herbinho. Ele chamava o Bertinho de Enterradão. Trabalhou, também, no cinema como limpador de cadeiras e foi ajudante do próprio Herbinho, quando ele teve um caminhãozinho Chevrolet, que eles chamavam de “Charanga” e era usado no transporte de lenha, telha, areia do rio da Várzea Formosa e, por último, água em tonéis grandes de aço com capacidade para 200 litros .

Mudou-se depois para a vizinha cidade de Ponto Novo, lá se casou e depois desapareceu sem nunca mais voltar a Itiúba. Dizem que ele foi para São Paulo.

 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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