A Complexa Mente Humana

Ivan de Carvalho

 

 

Seu nome, creio, era Albertina. Tinha o apelido de Betu e um papagaio, naturalmente chamado de Louro. Tinha também algum parentesco que não consigo explicar com a família Simões, portanto, com a minha família. Segundo meu irmão Taciano, ela fazia a melhor paçoca de milho e de carne que ele jamais comeu. E ele é gastrônomo.


Os dois – Betu e o papagaio – moravam, com minha velha tia Adélia, na Casa Grande da Fazenda Capoeira, uma propriedade rural que, na época, tinha vários donos, inclusive essa tia, que teve três interferências relevantes em minha vida de criança: eu gostava dela, minha família morou vários anos de aluguel na grande casa que ela possuía na cidade, na Rua da Estação, e ela representou meu primeiro contato visual com a morte do ser humano.

Vi, olhando furtivamente pela janela, seu corpo magro sendo velado na sala de visitas da casa de tio Simões, vizinha àquela em que eu morava na época. Não se pode dizer que morrera prematuramente. Deus prolongara os dias da severa, mas doce velhinha, neste mundo. Devia ter uns 90 anos. Uma intoxicação, diagnóstico oficial, jogou-a nos braços do Senhor. Outra querida e veneranda parenta, que ouviu o galo cantar, mas não sabia exatamente onde, esforçava-se em explicar melhor a causa mortis : “Foi intoxicação gravídica”.
Oh, tia. Sarah, mulher de Abraão, ficou grávida aos 90 anos. Mas isso foi na Terra de Canaã, não em Itiúba, e envolveu milagre de Deus e anúncio de anjo.

Voltando a Betu, que na opinião de minha mãe, a professora Lygia, tinha alguns incipientes poderes paranormais, entre os quais ressaltava o magnetismo do olhar, todo sábado ela abandonava o papagaio e descia da Capoeira à cidade. A descida era cansativa, o retorno em aclive, ainda mais. Havia que repor calorias e descansar.

Em um certo sábado, ela entregou a minha mãe uma certa quantia em dinheiro. E durante longo período, a partir daí, era certo ela chegar lá em casa, pedir o dinheiro, contar, botar no bolso, almoçar, descansar um pouco, devolver o dinheiro sem nada retirar ou acrescentar e ir embora para a Capoeira.

Ora, bastava chegar e comer. Como é complexa a mente humana...

 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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