A Muriçoca Amazònica

Ivan de Carvalho

 

 

Pombinho Pinto fez, na prefeitura de Itiúba, as duas coisas para as quais foi posto lá. Com seus votos, os eleitores lhe deram a tarefa de cuidar da cidade e do restante do município. Como chefe político, seu antecessor, Belarmino Pinto de Azeredo, lhe dera a tarefa de guardar o lugar para ele voltar quatro anos depois. Na época, a reeleição (para mandatos consecutivos) não era permitida pela Constituição.


Pombinho foi prefeito e cumpriu as duas tarefas. Mas foi também, quando no cargo e quando fora dele, um exímio contador de histórias.

Rivalizava com os mais criativos caçadores da cidade, Né, Quitu, Vermelho. E tinha sobre eles uma vantagem: falava com a autoridade de prefeito ou de ex-prefeito, o que impunha respeito e uma certa credibilidade, reforçada pela prata de seus cabelos brancos.

Em uma ocasião, Pombinho ausentou-se de Itiúba por certo tempo e voltou contando uma viagem à Amazônia. E haja história pra contar. A Vitória Régia, maior folha do planeta, o peixe elétrico, as árvores imensas com seus troncos de diâmetro descomunal, jacarés, coisas de índios, o grande rio, o repertório era inesgotável. É bom lembrar que ainda não havia televisão, muito menos a Rede Globo, para mostrar essas coisas até o cansaço.

Um dia, estava ele na praça, uma roda de embevecidos curiosos em volta. Mas foi aí que, talvez entusiasmado com a perplexidade de uma platéia notoriamente maravilhada, Pombinho perdeu o controle sobre a própria criatividade.

– As muriçocas de lá bebem um litro de sangue cada uma. Eu vi!

Estava na roda de ouvintes um senhor chamado Pedro Dentão. Ele virou-se lentamente e, enquanto começava a afastar-se acintosamente do círculo de ouvintes, disse em um tom de voz que era uma mistura deliberada e explosiva de admiração e zombaria:

– Ôôôôô muriçoca retaaada!!!...

Passaram muito tempo sem se falar.

 

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