A Revolta dos "Cassacos" da Camadaroba

Valmir Simões

 

 

Itiúba está situada em uma das regiões do Estado da Bahia onde sempre predominou a seca em quase todas as estações do ano. Com a finalidade de diminuir o sofrimento da população pela carência do precioso liquido, o Governo Federal, atendendo as solicitações de políticos daquela época, resolveu construir o Açude Púbico do Jacuricy, mais conhecido por Açude de Camandaroba. Lá foi implantado um grandioso canteiro de obras onde milhares de pessoas da redondeza tiveram a grande chance do primeiro emprego junto ao DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra a Seca).


Começaram a surgir casas, vilas operárias, residências de engenheiros e grandes armazéns para suprir de mantimentos os que ali trabalhavam. Os armazéns eram chamados de barracões e todos tinham os tetos de zinco, pois não existiam telhas de amianto naquela época. Os barracões forneciam de tudo para os empregados e o pagamento sempre era feito com bastante atraso. Os comerciantes não suportando mais os atrasos resolveram parar o fornecimento aos operários até que o DNOCS apresentasse uma solução para a situação. Os trabalhadores do Açude, chamados na região de "cassacos", não suportando a fome, resolveram tomar de assalto os barracões, carregando tudo que estava ao alcance, muitos levando até mulheres e filhos para participarem e assim arrecadar mais mercadorias. Houve muita gente machucada, presa e espancada.

Eu soube que pessoas saiam de dentro dos barracões arrastando peças de tecidos, fumo em corda, sacos de farinha e de feijão e tudo que podiam carregar.

Em Itiúba as autoridades ficaram preocupadas com a situação. Existia um funcionário do DNOCS, chamado Sr. Romão, que tinha uma linha telefônica direta com um Posto do Órgão lá em Camandaroba. Lembro-me que era um enorme telefone preto movido a manivela. A casa do Sr.
Romão ficava entre a residência do Sr. Pedro Ramiro e do Sr. Nino Pires.

O movimento de veículos foi intenso neste dia. Eu me lembro que o Zezitão chegou atordoado em Itiúba, pois ele tinha um barracão que também foi assaltado.

Foi um verdadeiro terror este acontecimento em Camandaroba. Não sei como a situação foi contornada e se o ressarcimento dos prejuízos dos comerciantes foi feito. Sei que, atualmente, poucos lembram deste acontecimento.

 

IR PARA O ÍNDICE DAS CRÔNICAS DESTE AUTOR
IR PARA O ÍNDICE POR ASSUNTO
IR PARA O ÍNDICE POR AUTOR
IR PARA O ÍNDICE GERAL

Veja a próxima crônica

Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

fpcarvalho@globo.com