Melé, O Engarrafador de Vinhos

Valmir Simões

 

 

Os comerciantes de Itiúba, naquele tempo, compravam as mercadorias em cidades maiores, como Senhor do Bomfim, Serrinha, Feira de Santana e Salvador. O meu pai tinha como fornecedor principal de seu comércio, uma empresa bastante conhecida, chamada H. Parada & Cia Ltda., mais conhecida como Paradela, situada no Gasômetro/Calçada, em Salvador. Entre as mercadorias de maior aceitação estava o Vinho Reserva

Vencedor, que chegava a Itiúba através da via férrea em um trem de carga chamado de “Arrecadação”.


Geralmente vinham em torno de três barris de madeira, acompanhados de selos e rótulos. Logo que chegavam, meu pai providenciava de imediato o engarrafamento. Já tinha uma pessoa certa para esse trabalho, no entanto, no dia combinado para o engarrafamento ele adoeceu e como alternativa foi chamado um carregador da cidade apelidado de Melé, que ganhava dinheiro fazendo o carreto de mercadorias em seu carro de madeira e gastava tudo bebendo cachaça.

O Melé se apresentou para o trabalho e foi colocado junto dele um pequeno tamborete de madeira, um funil de zinco, uma mangueira de borracha, um balde e um caneco. As garrafas já ficavam lavadas a espera do produto. A mesma pessoa que engarrafava o vinho, no dia seguinte, colocava os rótulos e os selos fiscais e, com uma rústica máquina manual, tampava as garrafas no final.

O Melé ficou no depósito fazendo o serviço com a porta fechada para evitar a entrada de algumas pessoas que gostavam de “bebericar” o vinho como amostra.

Tudo estava andando normalmente. De vez em quando meu pai dava uma olhada para ver se o serviço estava sendo feito corretamente. Depois chegaram algumas pessoas e ele parou a fiscalização por alguns minutos.

Em dado momento um freguês da venda disse:

– Zé, que cheiro forte de vinho é esse?

Meu pai observou então, bastante vinho escorrendo por debaixo da porta do depósito. Ao abri-la se deparou com o Melé caído junto ao barril e a mangueira derramando todo o vinho.

A operação foi interrompida e o bêbado Melé levado para casa. Nunca mais ele foi chamado para fazer esse tipo de serviço.

Quem já viu raposa tomar conta de galinheiro?

 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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