A Dor de Barriga

Valmir Simões

 

 

Como é do conhecimento das pessoas daquela época, o Açougue Municipal de Itiúba, (como a própria cidade), não tinha sanitários públicos.  
Sanitários só existiam nas residências e nas casas comerciais.


Quem trabalhava no açougue geralmente se servia nas horas apertadas dos sanitários do Bar Central do Carlos Pires ou da venda do meu pai, por serem os locais mais próximos.

Entre o Açougue e a casa comercial do Sr. João de Castro existia um beco que dava acesso à outra rua que ficava logo após a linha férrea. Nesse beco existiam barracas de comida de um lado e do outro barracas que vendiam carne de porco e de carneiro, sem a mínima higiene, tudo exposto ao relento. Nas barracas a comida era feita em panelas de barro usando-se um fogão improvisado ou trempe de pedra ou fogareiro de zinco. O cardápio era: ensopado de porco, lombo assado, ensopado de carneiro etc. Colesterol ninguém sabia o que era. Faziam a farofa da própria gordura e “tacavam” pra dentro, depois tomava uma Genebra e “tava” tudo bem.

Num desses sábados o movimento na venda do meu pai estava muito grande. Pessoas conhecidas costumavam deixar na venda, dentro do balcão, em balaios e boca-pios, as compras feitas na feira, para depois mandar um carregador pegá-las.

Para se chegar ao fundo do quintal do armazém, onde ficava o sanitário, tornava-se necessário passar por duas portas trancadas com chaves que ficavam nas gavetas de uma mesa junto ao dinheiro da vendagem do dia. O sanitário improvisado era construído com tábuas de caixotes de sabão e coberto de zinco. A parte interna era uma coisa bastante rústica onde existia um piso de taboado antigo e, no lugar do vaso, um buraco onde eram feitas as necessidades fisiológicas. Certa vez disseram para o meu pai:

– Um dia um cara ainda vai cair neste buraco.

O que falaram foi uma verdadeira praga. Naquele sábado, o Hermelino Açougueiro chegou às carreiras e foi logo dizendo:

– Zé me arranja a chave do sanitário que eu estou apertado.

Procuramos as chaves no meio do dinheiro e não as encontramos. Enquanto isso o Hermelino andava de um lado para o outro gemendo e segurando a barriga. Somente depois de alguns minutos alguém se lembrou de que o pedreiro Zé da Maçu estava fazendo um reboco no muro da venda e que, consequentemente, as portas estavam abertas. Quando dissemos que as portas estavam abertas e que ele podia entrar, o Hermelino saiu correndo e foi logo dando um salto dentro do sanitário improvisado, que não suportou o impacto e o coitado acabou ficando com uma das pernas enterrada nas fezes e começou a gritar:

– Socorro! Socorro! Tira-me daqui que as outras tábuas estão arriando...

Ainda bem que o Zé da Maçu correu para lá e conseguiu salvá-lo daquele trágico fim.

 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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