O Cabo que Engoliu a Própria Divisa

Valmir Simões

 

 

Quando garoto eu ajudava ao meu pai na mercearia e por ser bem pequeno não possuía altura suficiente para atender a freguesia no balcão e colocavam um caixote de madeira na posição deitado para que eu ficasse na altura correta.


Tudo que lá conversavam eu ouvia e guardava na memória. Mais tarde fazia algumas perguntas ao meu pai sobre os assuntos e ele, muitas vezes, advertia-me dizendo que as conversas das pessoas adultas, menino ouvia e calava não deveria se meter onde não era chamado.

Lembro-me como se fosse hoje, de um caso que minha saudosa Dindinha Chiquinha, que comandou o Hotel Vitória, juntamente com Tia Iaiá por muitos e muitos anos. Deus chamou a minha Dindinha aos 104 anos. Ela era uma pessoa de muita sabedoria e sabia de muitas estórias da nossa Itiúba como essa que passo a narrar.

Era um dia de sábado e o movimento da feira transcorria normalmente. Próxima ao Açougue Municipal encontrava-se Dindinha fazendo compras para o Hotel e nisso surgiu uma confusão nas proximidades da casa comercial do Sr. Antônio de Castro. Um policial apareceu e foi logo dando um soco em um senhor que estava no meio da briga sem antes procurar saber a verdadeira causa ou resolver a situação. Foi então que saiu de dentro do estabelecimento o Coronel Ramiro, mais conhecido por Ramirão, em razão da sua gordura, mais na pança do que no resto do corpo.

Ele era coronel porque naquele tempo as pessoas que possuíam mais dinheiro compravam uma patente da Guarda Nacional, ou seja, um título fornecido pelo Governo que, a depender do seu valor, poderia ir até o grau de coronel. Ele levou o militar até a mercearia do Sr. Antônio de Castro onde já se encontrava Dindinha Chiquinha. Chegou bem perto do militar que era cabo da policia, meteu a mão bruscamente na sua divisa que estava presa com uma presilha, mas não conseguiu retirá-la e pediu para que o próprio militar a retirasse e a colocasse na palma de sua mão. Então disse:

– Vou lhe mostrar o que um homem é capaz de fazer.

Pediu uma faca ao Sr. Antônio de Castro, cortou a divisa em vários pedaços e ordenou que ele engolisse tudo sem água. Dindinha então interferiu e pediu uma moringa com água e falou:

– Ramiro tenha piedade, engolir a divisa sem água é demais.

Ele atendeu e ordenou que a cada gole de água fosse engolido um pedaço da divisa e aos poucos ele engoliu tudo. A multidão presente dizia: “isso é que é homem!”.

O militar, após este caso, foi transferido e por pouco não foi demitido da corporação.

 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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