O Lolotinha e o Adelino do Ló

Valmir Simões

 

 

 

A maioria das cidades do interior da Bahia não possuía local adequado e higiênico para o abate de animais bovinos e suínos. Tudo era feito ao relento. Itiúba, entretanto, tinha uma instalação razoável para este fim.


O transporte da carne até o açougue municipal, distante três quilômetros, era feito em carroças ou em carros de mão. A carne era coberta de folhas de uma planta de nome cururu que, de qualquer forma, protegia-a um pouco do sol, mas não evitava a poeira. O carro de mão tinha uma enorme roda de madeira coberta com borracha e um lastro de madeira bem grossa, terminando com dois apoios para as mãos, onde era colocada uma correia para prender no ombro de quem transportava a mercadoria. Até hoje só vi este tipo de carro em Itiúba.

A disputa entre os carregadores para ver quem fazia maior número de viagens e pegava mais peso era entre as duas figuras seguintes:

1) Lolotinha: um tipo engraçado, meio gordinho e que só andava de boca aberta, babando e deixando sempre uma enorme língua à mostra. Falava as palavras meio trocadas e, por ser bobão, aceitava muitas vezes fazer o carreto da mercadoria em troca de um pão, de um pedaço de carne ou de uma boa dose de cachaça. Muitos açougueiros aproveitavam-se do pobre coitado;

2) Adelino, mais conhecido como Adelino do Ló, forte, robusto e musculoso. Cobrava o carreto em dinheiro e as paradas rápidas em “botecos” para “tomar uma” faziam parte do trajeto entre o abatedouro e o açougue.

Existia uma rivalidade entre ambos. O Lolotinha era bem mais rápido, descansava pouco e não fazia as paradas nos “botecos” no trajeto, em consequência dava mais viagens deixando, muitas vezes, o Adelino em desvantagem. Ao final do trabalho, contudo, o Lolotinha recebia apenas alguns pedaços de carne e o Adelino o dinheiro necessário a sua sobrevivência.

Muitas pessoas ficavam admiradas com o peso que o Lolotinha conseguia carregar e com a quantidade de viagens que ele fazia durante o dia sem se queixar de nada.

 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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