A DEDADA

Humberto Pinto de Carvalho

 

 

O que passo a narrar tem que ficar no anonimato por certo tempo. A vítima continua no nosso meio e, portanto, o seu nome tem que ser preservado dos gozadores de plantão


Quando estava na ativa no Ministério da Fazenda sempre fui procurado por pessoas de Itiúba e até mesmo dos municípios vizinhos, para atender urgências médicas. Numa manhã de uma segunda-feira, deparei-me com três pessoas desesperadas, esperando por mim na escada do prédio da Delegacia do Ministério, que fica localizado nas proximidades do Mercado do Ouro, no Comércio. A princípio não reconheci os personagens. Pensei que fosse briga do pessoal do Mercado. Quando me aproximei vi quem era e logo pedi que entrassem. Ali mesmo procurei ouvir o motivo do desespero. Uma senhora se destacou do grupo e assim me falou:

- Dr. Bertinho, o meu marido não está tão velho assim, mas nunca mais me procurou para suas obrigações domésticas...

O médico lá de Itiúba me aconselhou a vir procurar ajuda aqui na capital.

Sem querer entrar no histórico clínico, tentei abreviar o assunto e encaminhei o paciente para ser atendido no Posto Médico do Ministério. Fui trabalhar e esqueci, por momento, o problema do meu conterrâneo. Uma hora depois telefonei para o médico e fui informado de que, a princípio, o diagnóstico era um problema na próstata. Medicado de urgência, volta o pessoal para a minha sala e aí começa um novo drama. Quando soube que para confirmação do diagnóstico seria necessário fazer o “exame de toque”, o paciente quis saber o que isso significava. Expliquei, como leigo, os procedimentos e fui interrompido pelo doente aos gritos:

- Seu Dr. Bertinho, não vim aqui para ser desmoralizado. Vou voltar e falar com o seu pai, o Compadre Jove, que o filho dele mudou muito e fala embolado para ninguém entender, mas não sou bobo. O meu foi feito para saída, não vai entrar dedo de doutor nenhum. Prefiro morrer a servir de gracejos na Itiúba.

Hoje, como a “dedada” é um exame médico rotineiro, lembrei daquele momento embaraçoso. Não podia concordar, com a ignorância do recomendado do meu pai. Mandei servir café e biscoito na sala ao lado e aguardei. Quando voltaram a minha sala, a mulher do doente, perguntou:

- Esse negócio só dói na hora ou fica doendo muito tempo?

Como já havia feito o exame, tentei explicar. Disse que era incômodo, mas não doía e que logo depois se sentia uma vontade louca de urinar e nada mais. Não sei se expliquei bem o assunto. A senhora agradeceu, o doente balançou a cabeça e saíram. Fui até a porta para as despedidas e dizer que mandaria o meu carro levá-los à pensão, na Calçada, que havia reservado para eles. Para lá seguiram. No dia seguinte, preocupado, liguei para a pensão e fui informado de que os três saíram dizendo que não voltariam mais. Esqueci o assunto. Já estava acostumado com essas pequenas faltas.

Um mês depois fui a Itiúba. Como sempre, a primeira parada era na casa do meu pai. Coincidiu que o compadre estava com ele. Sem mais nem menos, falou na presença de todos que o médico da capital que eu havia marcado para atendê-lo foi muito gentil, explicou tudo direitinho e mandou ficar encostado numa mesa baixa, com as calças arreadas. Ele ficou e, quando estava distraído, sentiu um negócio frio penetrando, muito rápido, nas suas “partes fracas”. Não doeu. Pensou que ia demorar, mas terminou tudo ligeirinho e quando ele tentou levantar as calças, aconteceu o pior, se mijou todo. O médico não disse nada, mandou limpar e falou assim:

- Pode voltar e continuar comendo as boas mangas e pinhas de Itiúba. Você não tem nada na próstata para se preocupar.

Moral da história: uma dedada de quando em quando é recomendada pelos médicos. Não se pode é gostar

 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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