A SERRA-VELHA II

Humberto Pinto de Carvalho

 

 

Sempre existiram e sempre existirão no sertão da Bahia disparidades de vários aspectos, em particular no lado sociocultural. Uma delas, que até hoje chama a minha atenção, era uma brincadeira conhecida por quase todos os jovens da minha época. Era estimulada por uma confraria, sem estatuto, sem nada escrito que, sem juras ou ameaças, manteve-se incógnita, não abrindo mão do absoluto sigilo dos nomes das pessoas que foram fomentadoras, coordenadoras e executoras. Quem hoje poderia pensar que existiam até os financiadores. Tudo que, resumidamente, contarei, não quebra o encanto, o mistério ou mesmo a parte secreta da serra - velha.


Não se sabe quando começou. Ouvi, há muito tempo, que no Adro de São Gonçalo do Amarante, padroeiro do Povoado Serra da Itiúba, em volta da sua igreja que data de 1699, já se tocava búzio e lia-se ladainhas. Por dedução, chegamos à conclusão de que isso já era alguma coisa um pouquinho parecida com a serra – velha. Falavam que um dos vigários da freguesia, pai de muitos filhos, chegou a proibir e ameaçar prisão às pessoas ligadas ao assunto. Hoje o que interessa é registrar, para os estudiosos, fiapos das lembranças que ainda me ocorrem sobre o assunto.

Não sei como eram os procedimentos da serra - velha em Itiúba antes da iluminação elétrica das ruas. Posso ter esquecido alguns detalhes, mas, recordo que a rede elétrica era ligada às 18h e desligada às 22h. Certo é que a serra - velha só acontecia na noite de quinta para sexta-feira santa, data que, como é sabido, obedece ao calendário lunar e, consequentemente, com noites de lua cheia. Ninguém sabia ao certo de que parte das serras que circundam a cidade sairia o grupo composto de tocadores de búzios, instrumentos barulhentos, inicialmente feitos de chifre de boi, com o tempo substituídos por cornetas de barro e, por último, por mangueiras de borracha. Sopradas as mangueiras com força elas eram ouvidas em todo o perímetro urbano. Os instrumentistas dos serrotes, com um grande prego produziam sons que pareciam uma serra cortando ferro. Outros entortavam o serrote produzindo som forte ondulante. Os que carregavam a tralha com rosários de mamonas, bonecos e cruzes feitos com casca de melancia, velas e os imprescindíveis ganchos, confeccionados com barras de ferro e pontas viradas, não acompanhavam de perto o grupo executor. Sempre estavam prontos para atender os chamados. Havia um bloco especial que sondava o ambiente e aplicava a estratégia: mandava tocar o búzio, por exemplo, na Rua da Estação e dava instrução para aqueles munidos dos instrumentos mencionados, irem para a Rua do Campo de Bola, na época os extremos da cidade. Confundiam os verdadeiros objetivos e assim o grupo executor partia para pedir, em nome de Deus, aos coitados para se casarem. A ordem era silêncio total. Não havia conversa em voz alta. O máximo permitido eram assobios previamente combinados. O alvo escolhido era alcançado de surpresa. O fator surpresa era o mais importante para a serra - velha. Os primeiros a chegarem à casa escolhida eram os encarregados dos ganchos. Sorrateiramente, enfiavam as pontas dos ferros nas janelas e portas para impedir abertura pela parte de dentro da casa. Em seguida acenavam e lá ia outro grupo com o rosário, a cruz e a ladainha escrita que era pendurada nas portas e janelas com cera de abelha, para não fazer barulho. Uma pessoa de voz possante lia a ladainha que era uma prece aos céus, pedindo para o casal deixar aquela vida de amancebados. Com toda segurança possível, era a vez da aproximação dos homens dos serrotes e dos búzios. O som, produzido na calada da noite, acordava os dois pombinhos. Presos em suas próprias casas, xingavam e, os mais afoitos, davam tiros de advertência. Era a reação esperada dos desesperados e o apogeu para os brincalhões que corriam para longe com a ilusão do dever cumprido.

O dito popular que diz: “quem tem telhado de vidro não joga pedra no dos vizinhos”, não era respeitado por todos os colaboradores da serra - velha. Uns eram vidraças, mesmo assim, não perdiam o “chega pra lá”. Como era o caso do dono do “armazém-abrigo-secreto”. Não era casado. Tinha dois filhos e vivia bem com a sua consorte. Além do abrigo seguro que oferecia a turma, providenciava, para matar a fome dos seus amigos, antes, durante e depois dos acontecimentos, muita carne de sol assada, café e uma massa de pão assada no toucinho, que se chamava “besta”.

Mesmo assim, certo dia, dividiram o grupo e foram “serrar” a mãe dos seus filhos. Fizeram um trabalho perfeito. Até hoje ninguém sabe de quem partiu a ideia e quem executou essa tarefa com tamanha falta de vergonha. Quando o pobre homem chegou a sua casa lá estava a “mulher serrada” esperando por ele. Recebeu cabo de vassoura por todos os lados, beliscão e nomes feios. Apanhou e nem sabia a razão. No dia seguinte não abriu uma das portas do seu armazém como sempre fazia às sexta-feira santa para distribuir o vinho sagrado. Só depois de muito tempo, providencialmente antes do outra serra - velha, contou o ocorrido para os companheiros. Todos pediram perdão, porém o segredo ficou intacto.

Anos depois, numa noite, quando tudo estava pronto para a serra - velha começar, no momento que escapavam pelos fundos do prédio para ganhar a rua, são avisados por um dos “espiões” que o Delegado de Polícia estava na praça com soldados prontos para prender os malandros. Tinha que ser encontrada com urgência, uma maneira de burlar essa medida legal. Após examinar as sugestões, foi aprovada a que aconselhava espalhar, por diversos cantos da cidade, os tocadores de búzios para, sincronizados, soprarem os seu instrumentos, um de cada vez, mudando de local. Funcionou tão bem que a polícia não prendeu ninguém. Daí para frente esse método passou a fazer parte da estratégia dos anos seguintes.

Muitos casais foram injustamente “serrados”. Desconheço as estatísticas dos casamentos provocados pela serra - velha. As línguas ferinas afirmavam que o Padre sabia, mas, era proibido pelos seus superiores de falar. Certo mesmo era a responsabilidade dos líderes pela brincadeira de mau gosto para selecionar os participantes. Todo cuidado era pouco. Qualquer deslize era motivo para expulsão do desobediente. Acredito que a serra - velha chegou ao fim quando a iluminação das ruas da cidade não mais permitiu o anonimato dos “serradores” e seus cúmplices. Hoje, nos chamados tempos modernos, certamente não seria possível “serrar” os casais que se enquadravam nos rígidos costumes de então. Felizmente, digo eu...

 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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