A PROCISSÃO II

Humberto Pinto de Carvalho

Em Itiúba as festas religiosas comemoradas pelos católicos sempre são encerradas com uma procissão, uma espécie de peregrinação formada em fila dupla, com cânticos, andores com as imagens dos Santos e relíquias de grande veneração. É uma cerimônia religiosa. É um ato de fé tradicional, muito bonito, que percorre as ruas principais da cidade, no dia 8 de dezembro, data da Padroeira N.S. da Conceição, quando são realizados muitos batizados e crismas. Também existe uma outra, na Sexta-feira - Santa, que nos lembra, com as paradas nas estações da via-crúcis, o sofrimento de Jesus. Nesta procissão uma jovem, previamente escolhida pela organização da Igreja, representa a mulher que enxugou o rosto de Cristo, conhecida como Verônica, e, em todas as paradas, sobe numa cadeira com uma toalha branca que tem estampado o rosto ensangüentado de Cristo, entoa preces e ladainhas. Nesses momentos todos os participantes da procissão ficavam contritos, em silêncio. A presença do senhor Bispo era o ponto máximo das celebrações. Toda cidade é uma festa com flores, velas acesas e foguetório. O ponto inicial e final da procissão ainda é a Praça da Matriz. Todos aqueles que, rezando, percorrem os trajetos do princípio ao fim, acreditam que serão recompensados com a absolvição de todos os seus pecados. Esta crença é uma relação que sempre leva as pessoas a participarem. Hoje se nota tendências em busca de manifestações alternativas. Sabe-se que os fiéis modernos não perderam sua religiosidade, pode ser que encarem a procissão como uma jornada espiritual e sagrada ou apenas como mais um evento. Segundo o IBGE 74% dos brasileiros declaram-se católicos, o a equivalente a 130 milhões de pessoas, mas, apenas metade, cumpre os ritos e obedecem as regras e são, portanto, 65 milhões que esperam a sempre lembrada promessa da canonização do tão esperado SANTO ou uma SANTA, nascidos no nosso Brasil, o maior país católico do mundo. Pesquisas, também, comprovam que nós, brasileiros, desejamos em primeiro lugar ter o nosso SANTO e, logo em seguida, ganhar um Prêmio Nobel.

Não se sabe ao certo se o crescente interesse pelo esoterismo ou outras religiões, tem alguma relação com a esperança da consagração, porém, nota-se que há mudança no perfil do atual romeiro. Talvez, as alterações comportamentais ajudem os jovens, normalmente avessos à tradição religiosa, a escolher o melhor caminho em busca da harmonia interior de cada um.

Uma romaria espontânea que continua viva na consciência dos itiubenses, quer jovens ou maduros cidadãos, é a subida de centenas de pessoas à Serra do Cruzeiro, na sexta-feira Santa, que não sucumbiu aos apelos dos ócios delirantes, provocados pela comodidade da televisão e outras diversões modernas. A peregrinação aos velhos cruzeiros de madeira, fincados há décadas no descambo das águas, lá no topo das serras do Cruzeiro e da Tapera, com suas grutas, suas capelas e seus enigmas, são provas de que existem forças superiores que faz com que os jovens, tomem os lugares dos coroas, com o mesmo entusiasmo, nos festejos religiosos herdados dos seus pais.

Quando se fala das Procissões, não há como esquecer as famosas Feiras-Chiques, armadas na Praça da Igreja, com suas barracas de palhas de ouricurizeiros, cada uma com sua especialidade: Doces, comidas típicas, quermesse, sorteios, leilões e a Prisão do Amor. Esta última merece um esclarecimento sobre a origem do seu nome. A construção da sede era de madeira e com grades imitando uma cadeia. Havia as GUARDAS que vestiam uma imitação de farda de soldado, cuja missão era caçar os rapazes, com ou sem namoradas e que, sem qualquer motivo, recebiam ordem de prisão. Logo, eram conduzidos à “prisão do amor” e de lá para sair tinham que pagar a carceragem, uma espécie de multa para compensar as despesas com os presos condenados, por atitudes consideradas inconvenientes em público. Invenção que dava boa arrecadação. Uma Comissão, formada por pessoas idôneas, destinava a renda para compras de roupas, calçados e remédios para as pessoas necessitadas.

Tudo que se comenta nesta síntese nada mais é que a confirmação de que o controle da vida não é nosso e, por isso, não se pode prever o futuro da humanidade. Daí essa estranha dimensão das variedades da vida em formar e incentivar a organização da sociedade religiosa, face às múltiplas possibilidades que a existência oferece e que chega a ser assustadora. A vida, simplesmente, é um misterioso acontecimento e a fé convence e nos assegura que não estamos sós neste mundo de alegrias e lágrimas.

 


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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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