OS CABELEIREIROS

Valmir Simões

Naquele tempo eu só conhecia dois cabeleireiros em Itiúba. Lembro-me que o local onde eles exerciam suas atividades era chamado de tenda. Os cortes de cabelo por eles executados recebiam as seguintes denominações: rebaixado, franjinha, estilo militar, zero e outros que, no momento, não me recordo. Os instrumentos de trabalho eram: tesoura, pente de chifre, pedra une,navalha marca Solingen, pincel para barba, escova, álcool, talco Gessy, amolador de navalha e outras parafernálias. A cadeira usada era de madeira, forrada de chitão, com um encosto de cabeça para quem fosse fazer a barba, e, como complemento, tinha uma tábua para colocar sobre os braços da cadeira, para o atendimento de crianças. Na parede um espelho velho e manchado. Era o que tínhamos na época.

O Antônio Berro Grosso, católico fervoroso, tinha o hábito de conversar com um palito no canto da boca, o seu local de trabalho ficava junto a casa comercial do Sr. Antônio de Castro. Fanático por seu tabuleiro de jogos de damas com suas “pedras” feitas de pedaços serrados de cabo de vassoura de piaçava, ele costumava marcar a quantidade de partidas ganhas com caroços de mulungu. O Né gostava de caçar, contava muitas histórias engraçadas e era muito requisitado para atendimento à domicilio. Sua tenda ficava nas proximidades do armazém do Nino.

O tempo passava e eles não aprimoravam os cortes antigos nem criavam novos. Foi quando apareceu em Itiúba o Zé Soldado que além de militar era também um cabeleireiro bom e atualizado e a juventude passou a ter uma opção a mais. Os tradicionalistas permaneceram com o Né e o Antônio Berro Grosso.

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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