AS CABAÇAS

Valmir Simões

Quando chegava as chuvas de trovoadas, época que a cidade de Itiúba tinha água com fartura, por um bom tempo as cacimbas ficavam cheias de uma água cor de barro e que a meninada da minha época se divertia bastante.

Descia um riacho caudaloso, formado pelo sangradouro do açude da Fazenda do Estado, e que no seu caminho recebia as águas de outros riachos menores. No percurso ia enchendo as cacimbas do Mulungu, do Valadares, do Ademir e outras. Existiam algumas com maior profundidade onde os mais afoitos corriam pelas suas margens, davam cambalhotas e saltos mortais dizendo que iam “tomar pé” que era mergulhar até o fundo e retornar com as mãos cheias de lama.

Eu não sabia nadar e o meu pai dizia:

- Você não precisa de instrutor. Eu aprendi a nadar com cabaças e o meu filho vai aprender também.

Comprou um par de cabaças enormes e umas cordas de sisal e, lá na venda, o Zé Querino, seu compadre, amarrava as cabaças, separadamente, em minhas costas e eu ia até a sua casa, passava pelo quintal e ao sair pelo portão dos fundos me deparava com o riacho e uma das cacimbas próximas da cerca de palmas dos fundos da residência do Sr. Augusto Moura. Nadava à vontade, sem a preocupação de afogamento.

Na verdade, hoje sei nadar em razão das tais cabaças que me sustentavam na superfície da água.

 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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