AS MONTANHAS DE ITIÚBA

Humberto Pinto de Carvalho

Com certa freqüência desperta, em detalhes, na minha cabeça, fatos ligados à infância. Irmãos e amigos meus já disseram que, por ser pretensioso, quando tomo como firme a busca de qualquer objetivo, não costumo parar. Deve ser por entender que as referencias sobre Itiúba em jornais, falando sobre assaltos a banco e afastamentos de Presidente de Câmara de Vereadores e de Prefeitos, trazem danos à imagem da cidade, por falta de clareza dos autores e/ou culpados, que tem causa, mas, não têm efeitos punitivos.

Assim, em dado momento, como compensação, a curiosidade volta-se para as belezas naturais da nossa encantadora Itiúba que inclui a Cadeia de Montanhas que nos mapas é chamada de Serra de Itiúba e nada mais. Desprezada por muitos, com prejuízos incalculáveis, em especial para aquele itiubense que está longe e acredita na mídia como se fosse a palavra de Deus.

Quando olhamos a aparente imobilidade das nossas serras, não imaginamos as transformações imperceptíveis que, em permanente curso, vem moldando os seus relevos por milhões de anos. É o processo provocado pelas placas tectônicas, os blocos formadores da crosta da terra que são os responsáveis pelo surgimento das cadeias montanhosas, como as nossas. Essas crostas são as partes visíveis que tem entre 5 a 60 quilômetros de espessura. Para sorte dos seres que dependem do ar para respirar, as maiores são as que formam os continentes. Técnicos no assunto asseguram que a fragmentação começou quando houve a separação da parte que hoje abriga a América do Norte e Europa da parte da América do Sul, África, Austrália, Antártica e Índia, que intensificou as erupções vulcânicas, terremotos e conseqüentemente as montanhas.

Nos idos de 1600 os Jesuítas escolheram a “Serra da Tiúba” (sem o “i” inicial) para a catequese dos índios e dos primeiros moradores da região. Com a construção da capela de São Gonçalo do Amarante, em 1667/69, aqui chegaram os colonizadores a procura das riquezas da nova terra. Assim, a exploração, sem cuidados, das riquezas naturais, trouxe o desmando até nós e suas conseqüências são visíveis, como as nascentes que outrora jorravam água e desapareceram num ritmo espantoso. Quase toda mata nativa virou pastagem e esse processo continua sem nenhum controle. Dentro de pouco tempo as futuras gerações perguntarão as razões e serão poucos itiubenses que conseguirão informar a verdade.

Tudo que escrevo é para comentar a tristeza e decepção que tive quando constatei que a minha visita às autoridades locais, em abril deste ano (2004), na companhia do amigo Eugênio Sampaio, com um anteprojeto da criação de uma área de reserva ecológica, sem nenhum custo para os cofres públicos, apenas com a intenção de preservar os achados pré-históricos encravados nas nossas serras, não surtiu qualquer efeito positivo. Fomos recebidos com toda atenção e saímos de lá convictos de que alguma coisa seria feita. Ledo engano. Como alguns pensam com limitação, nada foi feito e isso me levou a questionar a razão pelo desprezo demonstrado. Uma pena, para não se dizer maldade para com o futuro do nosso município.

Sei que sou um dos culpados, por acreditar em promessas políticas. Reconheço minha ingenuidade (sem nenhuma alusão ao nome do bom Eugênio, meu companheiro de infortúnio). Resta um fino fio de esperança, ou quem sabe, as mesmas forças que removem montanhas desencadeiem uma fração do seu poder de criação e ilumine as cabeças dos escolhidos pelo povo e consiga despertar lá, num canto da massa cinzenta do cérebro, um tênue elo, mostrando que administrar não é só viajar em carros potentes, hospedar-se em hotéis, pagar com atraso a folha dos salários dos funcionários públicos. Não é pouco o que se espera, porém, é muito o que se precisa fazer a respeito.

Sabemos que o fim da destruição não é automático, faz parte de um processo que se arrasta, mas, pode ter fim, quando todos nós aprimorarmos nossos atos em defesa da natureza, única vítima muda e indefesa. É necessário esquecer que a culpa é do outro. Cada um deve assumir, ao seu modo, a parcela que lhe cabe. A responsabilidade é de todos. A maioria pensa e crer que em outras épocas a preservação das matas, rios e outros recursos naturais era mais fácil, o que não é verdade.

Todos nós temos fotos, bilhetes, cartas, mapas e outros documentos, não só nos armários, malas, baús, como também em álbuns ou pequenas coleções, que podem ajudar a reescrever o obscuro passado da nossa história. Precisamos formar o acervo, não importa se copiado, cedido ou emprestado. O importante é construir uma ponte entre os jovens e os experientes itiubenses de hoje.

Que DEUS na sua misericórdia confirme a crendice que, em resumo, diz:

“Deus é brasileiro, mas, com certeza, escolheu Itiúba como o paraíso que todos os abnegados precisam para descansar”. Amém.

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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