DE OLHO NO BULDOGUE

Valmir Simões

Quando ainda garoto, mais ou menos com 13 a 14 anos de idade, nada mais que isso, o primo Antonio Simões Valadares, mais conhecido por Valadares, perguntou ao meu pai porque ele não me colocava para aprender mecânica, na sua oficina particular, pois seria muito proveitoso para mim. Disse que eu iria aprender a dirigir dentro de pouco tempo e, o que fosse possível, dentro dos seus conhecimentos, iria passar para mim. Meu pai, de pronto, concordou. Mandou Tia Iazinha, exímia costureira, fazer um macacão de mescla, na cor preta, e poucos dias depois eu estava iniciando o aprendizado. Residia na mesma rua do Sr. Valadares, distante apenas três casas da sua. Fui muito bem recebido. A saudosa D. Calu preparava um café acompanhado com biscoitos caseiros e a tarde era repetida a merenda com bolo ou frutas. Na oficina existia um automóvel importado, na cor preta, marca Citroen, de origem francesa, que era o xodó do Sr. Valadares. Ele montava e desmontava o veiculo com a maior facilidade. Ele também cuidava de um antigo fusca azul claro, que tinha as sinaleiras parecidas com um leque que abria e fechava junto à coluna da porta. O vidro tinha a forma de ray-ban. Os motores, a diesel, da sua Fazenda Fibrasil, eram consertados, também, na mesma oficina. Fui aprendendo, aos poucos, a mexer com a mecânica dos automóveis. Ele começou a ensinar-me a dirigir e passei sempre a acompanhá-lo nas suas idas as suas fazendas. Uma delas ficava bem próxima da Camandaroba e a outra um pouco mais distante. Comecei a aprender a dirigir em um Jipe Willys Overland, azul com bancos pretos, veículo comprado em Salvador, zerinho. Passei a dirigir o jipe quando saíamos do perímetro urbano de Itiuba. Ele me entregava o volante e dizia:

- Vamos sem pressa, não quero tomar tombo, portanto, procure livrar o carro dos buracos. Ouviu?

- Sim, Senhor. Dizia-lhe respeitosamente.

Estava muito em moda colocar no capô dos veículos, bichos ou aves de metal, na cor prata, como enfeites. Dava um charme diferente. No Jipe foram feitos dois furos, bem na pontinha do capô, e colocado um cachorro buldogue, com as patas traseiras presas no capô e as dianteiras soltas no ar, como se o animal tivesse dando um salto a distancia.

Aos domingos, O Sr. Valadares ficava, à tardinha, na porta de sua residência, com sua esposa, sentados em duas cadeiras de lona e mandava me chamar para dar uns treinos sozinho. Entregava-me o veiculo, dando-me várias recomendações:

-Não quero velocidade. Tire o pé da embreagem bem devagar, não deixe o carro pular na arrancada. Observe os espelhos retrovisores. E a recomendação mais importante de todas, dirija sempre DE OLHO NO BULDOGUE, para você ter uma melhor noção de que o carro está indo correto.

Na verdade, o que ele queria dizer era que eu procurasse conduzir o veiculo observando a estrada, tomando como base o buldog que estava no capô, devendo, por ser aprendiz, andar sempre no meio da estrada, só dando passagem quando observasse um veiculo.

Só sei dizer que ele foi o meu melhor professor, tenho carteira há 40 anos e nunca cometi qualquer infração. Agradeço os seus ensinamentos.

Colaboração: Valmir Simões

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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