A VIRADA DO TROLE

Valmir Simões

A distância entre Itiúba e Picos era inferior a 15 km. Lá existiam muitos funcionários da RFFB (Rede Férrea Federal Brasileira), dentre eles, na maioria, clientes do nosso armazém. Aos sábados uns vinham de trem outros de trole. O trole, para quem não o conheceu, era composto de um forte lastro de madeira, com quatro mancais de aço bem lubrificados, com rodas idênticas às usadas nos trens, com o freio em cima do lastro e que era constituído de um grande furo por onde passava um pedaço de madeira com uma borracha na ponta e que acionada ia de encontro a roda e a freava. Na parte traseira existiam dois cambões de madeira que serviam para o trole ser empurrado, serviço feito por dois ajudantes. Apesar de haver passado tanto tempo, tenho lembranças do ocorrido.

Traziam dos Picos vários sacos de umbu, cestas de palha de ouricouri, um barril de madeira cheio de água potável, entre vários outros pertences. Na frente vinha sentado, em um banco de madeira, o Oscar, mais conhecido como Oscar dos Picos, Crauna, Oscar Barbosa. Os dois ajudantes empurravam os cambões e pongavam de lado, quando o trole pegava embalo.

Numa dessa viagens, ao aproximarem-se do Açude do Jenipapo, surgiu, repentinamente, um jumento na frente do trole que vinha em alta velocidade. De imediato o Crauna empurrou de vez o pedaço de madeira que servia de freio e o trole deu uma cambalhota no meio do corte (local estreito entre pedras na linha férrea) atropelando o jumento e jogando os passageiros à distancia, causando vários ferimentos neles.

Por várias vezes fui ao Povoado de Picos chupar os saborosos umbus, usando este tipo de transporte, mas, após o ocorrido meu pai ficou temeroso e não mais permitiu esse passeio de trole.

Colaboração: Valmir Simões

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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