BADU

Ivan de Carvalho

Badu almoçava. Feijão, farinha e um pedaço de carne.
– Gosta de carne, Badu?
– Ora, não!...
Badu tinha uns oito anos. Fazia parte da filharada do vaqueiro Zé Lima, morador nas margens da Lagoa da Jibóia, que integrava a parte não cercada de uma fazenda que meu pai, João Mutti, teve no Bonsucesso, à direita de quem vai da cidade ao povoado de Camandaroba. Morador, não exatamente empregado, até porque não havia criatório de animais na fazenda, salvo algumas galinhas e meia dúzia de bodes do próprio vaqueiro.
Essa lagoa, mesmo quando sem água, era uma festa para os olhos na caatinga, um oásis de árvores verdes e esguias, de alegres e diversificados arbustos e de uma grande variedade de pássaros inquietos, quebrando a monotonia da vida mirrada do resto da região, onde predominava a caçatinga, arbusto que varia do verde desbotado ao cinza, a depender do tempo ser de chuvas ou de seca.
Eu sempre me deliciava com aquela vista, quando, criança, ia até lá. Mas nem sempre Badu podia deliciar-se com carne. Às vezes, nem mesmo com o feijão e a farinha. Havia tempos de seca braba, muito mais duros do que hoje, quando já existe uma certa estrutura de amparo e a população rural do país diminuiu radicalmente, ante a rápida urbanização. A professora Lygia, minha mãe, observava a situação que lhe cortava o coração. Um dia perguntou a Badu o que ele (e, por extensão, sua família) comia nesses tempos de seca mais inclemente:
– Nóis pega a rapadura, rapa, braia com bró, cabá come.
O bró era uma espécie de farinha grosseira e com gosto de madeira feita a partir da parte inferior interna do pé de ouricuri ou licuri, como é mais chamado em Itiúba.
Minha mãe riu da maneira de Badu falar, mas em seu coração calou fundo o drama tão simploriamente relatado. E como este, ela via e sabia mesmo sem ver, milhares de dramas de fome e até sede se multiplicavam pela zona rural de Itiúba e de outros municípios da região do sisal. Na região existe uma espécie de árvore-rainha, um símbolo, o umbuzeiro (citado no dicionário Aurélio também como embuzeiro e imbuzeiro), que resiste e produz mesmo sob as mais severas estiagens.
Vendo a miséria, vendo o pé de umbu ou embu ou imbu, um dia ou uma noite, há muitos anos, minha mãe juntou num poema, só depois de sua morte descoberto, junto com outros, por meu irmão Taciano, a seca e a árvore amorosa com a população castigada pela natureza e pela criminosa negligência de tantos governos. Reproduzo a seguir, para que não fique registrado para sempre apenas no velho e discreto, talvez secreto caderno em que foi escrito, esse poema ao qual a autora sequer deu um título:

Menina pobre do mato,
Aonde vais tu,
Despenteada e descalça
Feliz, na manhã cheirosa?

- Pro pé do embuzeiro,
catar embu.

Bela moça sem adornos,
Aonde vais tu,
Com folhas verdes entre os dentes,
Nesta manhã radiosa?

- Pro pé do embuzeiro,
catar embu.

Jovem mãe sem ambições,
Aonde vais tu,
Com o lindo filho nos braços,
Nesta manhã tão formosa?

- Pro pé do embuzeiro,
catar embu.

Velha mulher desgraçada,
Aonde vais tu,
Coberto o corpo de andrajos,
Na manhã silenciosa?
Fala! Responde! Responde!
Que dor teu silêncio esconde?

Aonde vais tu,
Os passos cansados,
Os braços alçados,
Os olhos parados,
Os lábios gretados,
Clamando por Deus?

- Pro pé do embuzeiro,
Morrer amparada,
Morrer abraçada,
Num abraço de fome,
Com o tronco do embu!
(Lygia Lemos de Carvalho)


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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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