A SECA EM PROSA E VERSO

Ivan de Carvalho

Há meio século, a seca que ainda hoje castiga o povo de Itiúba e de todo o Nordeste brasileiro, especialmente os moradores da zona rural, era um flagelo muito mais devastador. A tênue rede de amparo social que existe atualmente, com aposentadorias dos trabalhadores rurais, cestas básicas, bolsa escola, obras para acumulação e conservação de água, carros-pipas, não elimina o rude sofrimento das populações atingidas pela seca, mas o faz, pelo menos na maioria dos casos, suportável, entre lágrimas, revolta, fatalismo e aflições.
Já foi muito pior. E era ainda, nos meus tempos de criança e adolescente. Não havia rede de amparo social nenhuma. Carro-pipa era luxo, privilégio, quase assombração. De cestas básicas, bolsa escola e outras novidades só o distante futuro sabia e o Funrural com suas aposentadorias não havia sido criado. Alguma coisa havia, em certas regiões – Itiúba era uma delas – quanto a obras para acumulação de água, os açudes. Mas eles ficavam a léguas de muita gente. Boas fontes de água subterrânea eram raras e de poços artesianos talvez alguns sábios falassem na capital.
Quando o flagelo se abatia sobre o sertão, nem o sertanejo conseguia ser um forte. Mais valia o pau-de-arara, caminhão tipicamente aparelhado para levar os flagelados do Nordeste baiano e do Nordeste brasileiro para o próspero São Paulo, em busca de emprego para o próprio sustento e o da família. Mas se São Pedro assava a terra nordestina e seus habitantes, São Paulo não servia refresco aos que o procuravam.
Os homens iam, abandonando terra e família, com a esperança na mente e a tristeza no peito. As mulheres e as crianças ficavam. Ficavam esperando. E, na maioria dos casos, não vinha nada. Somente a fome e o sol, um dia depois do outro.
Foi nesse drama que Lygia, minha mãe e professora de muitos itiubenses, encontrou aflição e inspiração para mais de um dos seus poemas. Um deles já está publicado neste site. Prometo que não haverá um terceiro. Mas estou completando o cenário acima descrito com um segundo poema.
No Apocalypse de Jesus segundo o apóstolo São João (o último livro da Bíblia) encontra-se o mais perfeito exemplo do doce amargo. Um anjo entrega um livrinho a João e ordena-lhe que coma. João o faz e, em sua boca, o livro tem a doçura do mel. Mas em seu estômago, adquire o amargor do fel. São também assim os últimos versos do poema (deixado sem título) que segue. As palavras são doces, o conteúdo não tem um grão de açúcar.

Das dores todas que há
Nenhuma dói tão pungente
Como dói, ó irmã sem nome,
A dor cruel da tua fome.

Tua dor em si resume
As dores todas que há:
Fome, doença, abandono,
Tristeza amarga da alma,
Saudade do que se foi,
Negro horror do que virá.

Quem mais do que tu sofreu?
Quem o próprio pranto bebeu
Para a sede mitigar?

Quem os olhos tristes volveu
Para os largos horizontes,
A ver se vinha o socorro,
Passo humano – a te buscar,
Braço amigo – a te amparar,
Coração por ti – pulsando,
Lábio em ânsia – chamando,
Calor de afeto – chegando?

Quem os passos arrastou
Por mais caminhos que tu?

Quem teve ausência de tudo,
Quem os braços estendeu
Na inútil busca ansiosa,
Procurando o que pegar,
Sem nada, nada encontrar?

Que alma ficou tão vazia
Como tua alma ficou?

Quem as duras mãos estorceu
Nos gestos desesperados,
Quem dos lábios soltou gemidos
Como os teus – alucinados?

E esta loucura da fome,
Que vem chegando de manso,
E te apaga as esperanças,
E te amortece as lembranças,
Crispando sua boca em riso,
E abrindo-a em paraíso
Do inferno da tua dor?

Caída exangue de bruços na estrada,
A pobre face encostaste
À face da escura terra (ingrata)
E num delírio, a sorrir,
Louca de fome e de dor
Um beijo longo de amor
Cair dos lábios deixaste
Na terra triste, queimada.
(Lygia Lemos de Carvalho)

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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