DERROTADO PELOS MARIMBONDOS

Valmir Simões

Entre dezembro e janeiro, Itiúba passava a ter um movimento muito grande de seus filhos que residiam em Salvador e iam passar as férias lá, com seus pais. Não foi no meu tempo, mas meu pai me contou o fato que vou narrar.

Meus avós e tios tinham duas fazendas, Tatu e Capoeira. Para quem vivia em Salvador a preferência, de fato, era mais pelas fazendas. Época de muitas frutas com fartura. A região do Tatu tinha um clima mais agradável, por ser mais montanhosa. Alguns empregados de meu avõ tinham descendência de escravos, entre eles um que almoçava em uma tigela enorme não dispensando um prato de pimenta malagueta. Não usava talheres e a comida era amassada com a mão, fazendo bolinhos recheados de pimenta. Costumava andar sem camisa, quando estava trabalhando, no entanto, pelo respeito, não tinha acesso a casa sem estar vestido corretamente. Nos pés uma legítima “salga–bunda” [sandália de couro cru] presa entre os dedos. Um cinto ou corda de caroá segurava a pesada calça de mescla de cor escura. Forte como um touro, dizia:

- Moço, eu nunca tive uma dor de dente.

Certa vez todos estavam na frente da casa da Fazenda Tatu e perceberam que o gado pastava em toda a área, deixando o capim quase rente ao solo, e, em um determinado local, próximo a uma enorme pedra, existia uma moita de capim de tamanho fora do comum, isto chamou a atenção de todos, porque os animais não comiam naquele local. O empregado se ofereceu para ir até lá e descobrir o porquê. Pegou um facão de 20 polegadas, que era seu amigo inseparável, tirou-o da bainha e se mandou. Olhou, analisou e veio correndo, Dizendo:

- Meninas, vocês querem comer mel à vontade? O gado não come o capim, porque tem um enorme inchu verdadeiro que toma toda a moita.

Pegou duas cuias de cabaça, subiu na pedra e disse:

- Preparem-se que eu vou saltar no meio e cortar todinho no facão.

Deu um salto dentro da moita e tome facão pra lá e pra cá. Em dado momento, aquele homem saiu às carreiras de pastagem se enrolando pelo chão, caia levantava, batia as mãos pelo rosto, cabeça e toda a parte do corpo e ficou inerte no meio do pasto. O pessoal chegou perto e viu que ele estava irreconhecível. A língua tomava quase todo o espaço da boca, os olhos não abriam e o cara não dava uma palavra. Salvou-se por pouco, pois levaram-no imediatamente para Itiúba. De nada adiantou ser tão forte e valente, pois foi derrotado por uns bichinhos tão pequeninos chamados de marimbondos (Inchus).

 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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