O FILHO DO BEREGA

Valmir Simões

Nunca soube o seu verdadeiro nome de registro, mas todos o chamavam de Candonga. Era filho do vaqueiro Berega, pessoa de muita confiança de seu patrão, Sr. Valadares.

Próximo da Estação Férrea existia um velho curral sombreado por um imenso Juazeiro que estava sempre abarrotado de frutos muito apreciados pelos garotos da época.

O Berega vinha bem cedinho tirar o leite das vacas no tal curral e era acompanhado sempre pelo Candonga que, desde pequeno, tinha o hábito de andar com uma corda em forma de laço e um badogue dentro de uma capanga cheia de balas de barro. Enquanto o pai cuidava do trato dos animais o Candonga não sossegava, atirava em lagartixas e nos pássaros que ficavam em cima do gado catando carrapatos. Ficou um cara exímio em atirar de badogue. Junto à cerca do curral morava um casal de velhinhos, “seu” José e “dona” Lídia. Ele aposentado da Estrada de Ferro e ela uma doméstica muito caprichosa que fazia doces para vender aos passageiros da Estação. Certa vez, o Candonga estava fazendo tiro ao alvo com o badogue e uma das balas de barro acertou uma lata que estava assando castanhas de caju no quintal da casa de “dona” Lídia. Algumas castanhas caíram dentro da roupa de “dona” Lídia deixando enorme marcas na sua pele. D. Lídia coitada corria sem parar, gritando em razão das queimaduras. O Berega que estava por perto, ao ver aquilo, saiu em disparada atrás do Candonga e ele, correndo e olhando para trás, caiu dentro do viramundo da Estação, ficando com o corpo todo ralado. O Berega aproveitando a queda do filho, deu-lhe várias chicotadas de cipó caboclo. Foi um horror! Precisou da interferência do João Martins.

Na verdade o garoto era um terror mesmo.

 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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