A LINGUIÇA

Ivan de Carvalho

Quem fazia era Celidônia. Mas desta figura de mulher-macho, paraíba sim senhor, quase nada tenho a acrescentar ao que foi descrito por Fernando Pinto de Carvalho, com base na memória de seu irmão Herbert e que constitui a crônica número 81 deste site. E se conto agora esta outra história envolvendo a mesma pessoa, faço-o graças à memória de meu irmão César.

Não é que não me lembre de Celidônia, mas não tinha o conhecimento de alguns dos fatos que seguem, exatamente os mais importantes. Entre as mil coisas que ela fazia – com a dignidade de lutadora e a língua afiada para a retorsão de arrelias com xingamentos de romper os tímpanos de qualquer um – estava a lingüiça.

Ah, colesterol puro, a lingüiça frita da minha infância, com farofa ou acompanhando ovos também fritos. Lingüiça que nem parecia com essa coisa desbotada e feia exposta hoje nos supermercados da vida. Lingüiça com ovos e a gente, na doce inocência infantil, nem pensava na malícia dessa mistura. Naquele tempo, o coração era puro. E para os puros, diz a Bíblia, todas as coisas são puras, como para os impuros todas as coisas são impuras, pois a impureza está em seus corações.

Bem, mas voltemos à lingüiça. Minha mãe, de vez em quando, encomendava lingüiça a Celidônia. Era uma delícia, reconhecida em nossa casa e em outras, ninguém se queixava do manjar. Mas um dia, o irmão César me contou, ele ouviu minha mãe reclamando que fora encontrada metade de um espinho de mandacaru encravado na lingüiça. O espinho de mandacaru era usado na época para fazer múltiplos furinhos na lingüiça – era parte da técnica. Não devia, claro, ser incorporado ao petisco, nem no todo nem em parte.

Mas não foi por isto que Celidônia foi dispensada das encomendas lá de casa. Minha mãe apenas mudou o esquema. Encomendava a ela apenas a tripa do boi, devidamente lavada, seca e cheia de ar. Então, as empregadas, sob a orientação e vigilância, além de ajuda direta da patroa, que sempre foi uma mestra em cozinha, “enchiam a linguiça” lá em casa mesmo. Não é para nos gabarmos não, mas ficava ainda mais gostosa.

Um dia, no entanto, a perplexidade, a surpresa, o espanto, o sentimento de quem fora vítima de trapaça. Um de nós – eu não fui, mas César não lembra se foi ele, Maurício ou Taciano, nem com qual objetivo – resolveu, juntamente com Deusdeth, irmão do nosso primo e colaborador deste site, Valmir Simões de Carvalho, trepar no muro e espiar para o quintal da casa de Celidônia, invadindo-lhe a privacidade.

E ela estava lá. Desprevenida. Completamente nua, sentada em um banquinho de madeira, enchendo lingüiça. Os dois desceram do muro meio enjoados e, daquele dia em diante, nunca mais entrou lá em casa lingüiça ou tripa preparada por Celidônia.

Na casa de Zé Simões, não sei se souberam da descoberta. O que sei é que o Deusdeth, segundo constou, naquela época, na família Simões, adquiriu uma repentina, intrigante e inexplicável rejeição por lingüiça.

 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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