e

Adote um Jegue

Humberto Pinto de Carvalho

O jegue transportou o Menino Jesus na fuga do Egito e, com sua paciência angelical, ficou reconhecido até hoje como um animal bíblico. Tem sua imagem moldada em argila nos presépios, conhecidos como lapinhas, erguidos, com devoção, em muitas residências interioranas. nas festas comemorativas de Natal e Reis.

Em nosso território é mencionado, desde o período colonial, como animal de carga, por sua força, robustez e resistência. Incrementou o comércio com o seu trabalho, escalando montanhas e estradas sob sol e chuva. Sabe-se que quase tudo que desembarcava ou seria embarcado nos navios, de uma maneira ou de outra, sempre dependeu do braço do homem e do lombo do jegue para chegar ao seu destino.

É bom lembrar que os povoados se transformaram em cidades, com suas igrejas, prédios escolares, cadeias, casas residenciais e armazéns, graças ao trabalho do nosso velho Corneteiro (jegue), que, sem muita reclamação, carregava os tijolos, areias, barros, telhas, madeiras, lenha, carvão, água, frutas e o “de comer” para os ricos e pobres. Transportaram a riqueza sertaneja na região de Itiúba, que, por sua localização, por muitos anos foi o ponto escolhido como entreposto ferroviário para receber cargas e descargas das tropas de jegues que chegavam e partiam com feijão, farinha, açúcar, rapadura, ouricuri e mamona para os galpões e feiras. Também nas mudanças das famílias de uma fazenda para outra, na época das secas, o nosso querido Agüenta-seca era utilizado na condução da tralha, dos doentes e da garotada. Ainda servia como arrimo para ganhos extras.

Carinhosamente acumulou muitos apelidos: Carrega-tudo, Cara-comprida, Esbarra-trem, Jornaleiro, Fofa-chão, Fuxico, Guarda-de-trânsito, Orelhudo, Cai-de-lado,Seresteiro, Relógio de Pobre, Sinaleiro, Sofredor, Limpa-monturo, Atrasa-viagem, Dorminhoco, Inspetor-do-Agreste e muito mais. Nenhum, porém, condizente com a crendice milenar que diz ter sido a mijada do Menino Jesus que desenhou uma espécie de cruz no dorso como sua marca sagrada, vista até hoje. Embora sugestivos, preferimos o substantivo que os adjetivos.

O que não tem explicação é ver um jegue carregado, com peso muitas vezes acima da sua capacidade física, fazer uma caminhada sem tangedor. São nossos conhecidos os jumentos que transportam cargas da Serra do Adro da Igreja de São Gonçalo do Amarante, que, com maestria, descem e sobem as ladeiras, fazendo curiosas evoluções, de acordo com as ondulações ou curvas.

O jegue na estrada da vida, com sorte e destino incerto, pela sua singeleza e dedicação e por serviços prestados, merece mais respeito. Os antigos tropeiros já não existem. São lembrados como aqueles que usavam esses animais em longas distâncias, mas, cuidavam das suas pisaduras.

Na Internet o trabalha com abreviatura é fundamental. Portanto, fica criada a JMJ (Jumento do Menino Jesus). Fácil de decorar que, certamente, ajudará na defesa desse animal desprezado e abandonado em todo nordeste. Só para ilustrar, mencionamos que os dois maiores rebanhos de asnos estão na China, com doze milhões, e na Etiópia, com cinco milhões. No Brasil não temos estatística confiável sobre o assunto. Achamos que somos o terceiro. Na África, nos arredores da capital da Etiópia, uma ONG (organização não governamental) montou um hospital exclusivamente para esses abnegados. Um exemplo a ser seguido por nós. O avanço é tímido, mas, sinaliza uma tendência válida. Respeitar e salvar o que resta da raça do antigo meio de transporte dos mais fracos é obrigação de cada um de nós.

Mesmo na era do “mais rápido melhor”, levar esses animais à condição de indesejáveis, que vagam pelas estradas, sem rumo, sem pastos, sem água, reforça a necessidade de medidas que impeçam o extermínio ora praticado com esses laboriosos e indefesos jericos, a quem devemos e não reconhecemos suas jornadas que determinaram as ligações entre o litoral e o interior do País. Definitivamente, merece revisão dos conceitos e julgamentos, sobretudo, quando se debate a defesa da natureza, do meio ambiente, do clima, do ar, da fauna, da flora, dos rios, dos mares, dos animais selvagens e esquecemos daqueles que mais prestaram serviços ao homem e sua família.

Os jumentos relincham para marcar território. Escoiceiam para se defender. Saltam para derrubar os montadores que usam chicote e espora. Assim, com inteligência e nenhuma maldade quebra os grilhões da burrice humana. É compreensível. Nossa burrice sempre chega primeiro que a velhice. Lembramos que não era assim. Havia o Curral dos Jegues, posteriormente apelidado de “Estacionamento dos Jumentos” mantido pela Prefeitura Municipal de Itiúba, com água e vigilância que abrigava os animais de carga e montaria, enquanto os donos faziam suas vendas e compras na cidade. Também, servia para prender os jegues vadios, com alegação de que alguns machos apresentavam suas “armas” em plena avenida nas perseguições e orgias próprias da reprodução.

Com seu trabalho duro e pesado, aqui apontamos suas virtudes e é sabido que não carrega nenhum dos velhos defeitos dos seus patrões.

O destaque fica por conta do apelo que fazemos:

 

LIBERTE-SE DA SUA BURRICE: ADOTE UM JUMENTO

 

Saudações “jegáicas”

 

E quando depois de agosto

De chuvas não há vestígio

Jumento sobe de posto

Cururu perde prestígio

 

A...É...I...O...U... PSILONE...PSILONE...hum...hum ...

 

Colaboração: Humberto Pinto de Carvalho

 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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