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Dona Josefa, repórter

Ivan de Carvalho

Eu me lembro, era criança. Na primeira metade dos anos 50. Morava na então chamada Rua da Estação, que na época e por um bom tempo mais teve um lado só, o mesmo no qual ainda hoje se situa a Escola Góes Calmon. Além só havia grama, capim e algumas pedras, uma vala margeando uma precária estrada de terra que depois ganhou cascalho, mais grama e capim e afinal a ferrovia.

Em 1954 eu tinha dez anos e ainda guardo tudo isso na memória, cada detalhe, até mesmo a maior das pedras da rua, pedra que uma empregada doméstica lá de casa, que ficou conosco muitos anos, Cotinha, usava para o agarra-estica com algum namorado.

Cotinha, pelo que sei, ainda está viva, com perto de 80 anos, mas a pedra que antes de servir a ela servira a meu pai, João Mutti, como trincheira nos plantões para enfrentar uma eventual invasão do bando de Lampião foi levada para local incerto e não sabido. Dores do progresso, a paisagem radicalmente modificada.

Dores maiores, a saudade dos colegas e das colegas de escola, de algumas estimadas professoras, Avany, Zenaide, Aninha, como as chamava uma outra professora, Lygia, que era a minha – professora e mãe, de quem aprendi as melhores lições que ela me pôde dar e eu podia querer, do primário ao francês para o vestibular de Direito e muito mais. Quanto mais...

E eu, coitado, quis retribuir-lhe um dia, ela já velhinha, a única lição que eu achava que sabia um pouco e que ela não sabia, pois por muito tempo deixou-se iludir pelo materialismo marxista. Comecei a lhe falar de Deus, de quanto importava crer, de Jesus. E foi então que ela me surpreendeu com mais uma lição: “Mas isso? Já faz tempo...”. Ela aprendera sozinha.

Bem, vamos ao personagem central dessa história. Dona Josefa, não minha avó materna, mas outra itiubense, morena pra lá de carregada, então de meia idade, mulher de responsabilidade e luta, de muita labuta, dona de uma pensão na Rua da Estação (desculpem a rima involuntária) e de uma língua insuperável.

Se hoje sou um repórter, ela já era naquele tempo, mas não escrevia, falava. E me parece, tinha mais competência do que o Hugo, o Fernando, o Manoel Carlos, o Armando Rios e outros locutores da Rádio Cultural de Itiúba. Ao contrário deles, ela dispensava microfones e alto-falantes, punha as notícias em circulação com muito mais velocidade e contava novidades que eles não contariam.

Minha mãe chamou uma vez a minha atenção para o fenômeno. Se acontecia algo digno de nota, fato digno da atenção da sociedade itiubense, sabe Deus a razão, dona Josefa era a primeira a saber. Então ela saía da faina da sua pensão, os hóspedes, se houvesse, que se virassem, e punha a língua a fazer o serviço.

Em cada casa da Rua da Estação sempre havia alguma janela aberta. Ela não usava a porta. Isso acabaria acarretando atrasos. Parava, espichava o pescoço janela adentro, chamava pela dona da casa, transmitia o bizu, dirigia-se, diligente, à casa vizinha, repetia o ritual. Até terminar a rua. Então, dobrava a esquina e, suponho, prosseguia. Dona Josefa era um veículo de comunicação muito eficaz naquela época de raros jornais e receptores de rádio e nenhum televisor.

Foi por isto que eu soube do suicídio de Getúlio Vargas. Era o 24 de agosto de 1954. Eu tenho a impressão que nunca ouvira falar em suicídio, mas quando ouvi a frase, “Lygia, Getúlio suicidou-se”, entendi imediatamente a natureza do fato e senti que havia crise no ar. A notícia não chegou lá em casa por dona Josefa. Ela pulou nossa casa, dessa vez. Certamente a importância da notícia a deixara afobada. Contou a Maria Simões (Binha, uma prima adulta, de quem eu gostava muito), que morava na casa vizinha e Binha foi lá em casa compartilhar a notícia. Como dona Josefa, também usou a janela.

 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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