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Fortes emoções I

Ivan de Carvalho

Lá pelo fim dos anos 40 e primeira metade da década de 50, os bois eventualmente proporcionavam ao público não pagante de Itiúba fortes emoções.

Às vezes, um ou outro decidia, sem encontrar oposição, alimentar-se da grama de certas ruas. Havia pessoas adultas medrosas e cuidadosas que guardavam distância regulamentar do animal, uns cem metros, e se o bicho não entendia e não colaborava com a prudência humana, essas pessoas se recolhiam às suas casas e batiam-lhe com a porta no focinho. Simbolicamente.

As fortes emoções, no entanto, não vinham de vacas ou bois mansos interessados em saciar seu apetite felizmente vegetariano. Eram proporcionadas pelo bois “de careta e cambão” que vinham enfezados das fazendas e tinham de atravessar parte da cidade, conduzidos por um, dois e até três vaqueiros, à custa do uso do ferrão, até o abatedouro.

Um deles, especialmente, deu um espetáculo emocionante e inesquecível na Rua da Estação, que, para mim, jamais terá outro nome. Foi o “boi de João de Castro”. Alto, forte, enorme, de careta e cambão, acompanhado por três vaqueiros com ferrão. Ele avançava alguns metros, então corria às cegas para algum lado, acabava voltando, anulando o avanço.

Levou cerca de uma hora, eu calculo, para ir do início da rua até junto à prefeitura – e então deu meia volta, e, numa brilhante arrancada, voltou até às proximidades da estação. Na rua, ninguém além do boi e dos três vaqueiros. Nas casas, nenhuma porta de entrada aberta. Nas janelas, todo mundo se acotovelando. Mas se o boi acelerava em direção ao lado povoado da rua, logo as janelas mais próximas da trajetória de colisão da fera se fechavam.

Deu um aperto no coração, deu saudade, deu um sentimento de “nunca mais outro igual” quando, finalmente, os vaqueiros conseguiram fazer o boi, exausto, mas ainda lutando, dobrar a esquina do Tanque da Nação, pegando o rumo do abatedouro. Aquele boi não merecia o abate, mas um pedestal.

 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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