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Fortes emoções II

Ivan de Carvalho

As fortes emoções proporcionadas pelos bovinos quase invariavelmente vinham dos espécimens “de careta e cambão” conduzidos ao matadouro. Mas houve uma notável exceção.

Eu tinha uma tia querida, irmã de meu pai, batizada Alzira. Mas eu e meus irmãos chamávamos de Dinda, porque era madrinha de meu irmão Maurício, enquanto os adultos da família a chamavam de Zizi.

Casada com Pedro, tio por afinidade, mas não menos querido, durante muitos anos responsável pelo armazém de Belarmino, que com sua saída para vir para Salvador foi entregue aos cuidados de Banduca.

Dinda era uma pessoa corajosa para enfrentar os trancos da vida, mas não para ameaças físicas.

Era uma sensitiva eventual e não praticante, apegada à sua fé católica. Mas pelo menos em uma ocasião, contou-me ela, viu abrindo uma porta que ela se preparava para abrir, a mão que uma peculiar aliança identificava como a de sua mãe (e minha avó paterna), Leonor.

Em outra ocasião, em casa, em intervalo de descanso para voltar à residência onde uma parenta agonizava, sentiu um forte e sufocante abraço invisível. Era a despedida. Pediu socorro ao marido para livrar-se do abraço, que desfez-se com a mesma instantaneidade que começou. Naquele exato momento, ela vericaria logo depois, morrera a parenta idosa e doente.

Mas essa sensibilidade toda não a ajudou a perceber, um dia que estava sozinha em casa – situada numa das esquinas da lamentavelmente extinta Praça Nova – o perigo que chegava.

Pela portão aberto, depois pela varanda, atravessando a sala de visitas e depois a de jantar, varando a cozinha e finalmente ganhando o quintal (de onde não sei quem o tirou nem por onde saiu), passou por ela, soberano e indiferente, um boi daqueles de chifres bem criados. Não vi a cena, que me foi mencionada em casa ligeiramente e que fiz questão, depois, de saber, com todos os detalhes, de um dos protagonistas – o único que podia contar, a tia. Enquanto o boi atravessava a casa, ela ficara paralisada pelo terror. Quando me contou, já se haviam passado alguns dias, mas ainda arregalava os olhos ao falar.

Ainda bem que não estava sozinha. Em um nicho ou cúpula (já não me lembro mais), havia uma escultura de Santo Antônio, o santo de sua maior devoção. Foi com ele que ela se pegou para enfrentar a fera com reza e invocações absolutamente silenciosas, pois não seria ela que iria chamar a atenção do monstro. E saiu ilesa, pois Santo Antônio nunca lhe falhou. Servia para ajudar a achar agulhas sumidas e para evitar espetadas de chifre de boi, entre muitas outras utilidades.

 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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