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A Feira de Itiúba

Humberto Pinto de Carvalho


Todas as feiras do sertão começaram ou num caminho ou em frente à Capela. Pensamos que a nossa nasceu para valer quando o primeiro trem de ferro chegou à Fazenda Salgada em 15 de abril de 1887. Os trabalhadores, mestres de obras e engenheiros da construção da ferrovia, certamente, foram os primeiros fregueses. Pelos depoimentos das pessoas de idades avançadas, as primeiras barracas foram instaladas em frente da Igreja de N.S. da Conceição, a chamada Praça da Matriz. Em 1911 mudou para a Praça Nova, ficando lá poucos anos. Voltou à Praça da Matriz. Como a expansão normal exigia melhores condições de funcionalidade, em pouco tempo passou a ocupar a Avenida Getúlio Vargas, chegando até perto do Prédio da Prefeitura Municipal. Não se sabe as razões plausíveis, mas, um Prefeito, para marcar presença, como todos fazem, sem consultar a população e os negociantes, transferiu tudo para a antiga Praça São Bento. Fato consumado, todos itiubenses esperavam que fossem eliminados os transtornos conhecidos, como falta de espaço (as chamadas ruas). Mas, por não haver planejamento, , tudo de ruim acompanhou esse Ato Municipal e nada mais.

Feira livre, como é conhecida na capital, difere em tudo da feira em Itiúba, não só no nome. Na capital, quando chove, quase ninguém sai de casa para ir às compras, com alegação do lamaçal que normalmente acontece. Nossa feira é livre na acepção da palavra. Todos os sábados, com sol ou chuva, funciona desde as seis horas da manhã até o sol se por. Lá estão expostas as frutas: banana, manga, jaca, pinha, mamão, laranja, lima, limão, melancia, umbu, jenipapo, jabuticaba, caju, produzidas nas serras que circundam a cidade. Tem alface, cheiro verde, cebola, cenoura, batata-doce, tomate, coentro, chuchu, abóbora, feijão mulatinho, feijão de corda, farinha grossa e fina, rapadura, queijo de cabra, requeijão, doces de leite, cocada de ouricuri, mel, geladinho, caldo de cana, e mais o que pensar. Sempre há novidade trazida de fora.

Em todas as feiras do sertão aparecem vendedores e compradores vindos de jegues, caminhão, carroça, bicicletas, motos, com suas manias. Às sete horas são encontradas as pessoas que saíram de casa por volta das três da madrugada trazendo seus produtos para vender e "tomar assentos" sempre no mesmo lugar, para não ser confundidas com os seus concorrentes. Deve ser uma das razões para chegar antes de todos os outros. Quando não vendem suas frutas, legumes, verduras fazem o “queima” também conhecido como “xepa”. É o momento esperado para as compras pela metade do preço. O freguês não tem direito de escolher ou leva o “monte” ou não leva nada.

As exposições a céu aberto são variadas e ocupam as ruelas formadas entre um caçuá com dono sentado e uma esteira no chão. Por esses apertados corredores circulam as donas de casa acompanhadas por um carregador. Há muito respeito entre os vendedores e compradores. Não se ouve gritos ou palavrões. Tudo se vende: sapato, bolsas, roupas, panelas, móveis, ferragens, CD E DVD possivelmente pirateados, radinhos e relógios de pilhas a tecidos, cestos e brinquedos. Isto tudo é comum para os moradores da cidade, mas, é novidade para quem está de passagem e se mistura aos itiubenses.

Dentro e fora do Mercado Municipal Joviniano Carvalho são vendidas carnes de gado fresca e do sol. Também, de bode, de carneiro, de galinha, de capão, de porco, buchadas, mocotó, toucinho, costela, que além de abastecer a população local é o paraíso dos visitantes que compram pela qualidade e preços baixos.

Quando Itiúba tinha como Prefeito o Sr. Wagner Mello Santos, a Feira Livre passou por uma transformação radical no que se refere aos pesos e medidas adotados há séculos. Depois de verificar que as reclamações dos cidadãos estavam fundamentadas em grosseiros erros e, até mesmo o mais bem intencionado vendedor praticava o método arcaico, decretou que a partir de 1960 ficava abolido o uso do prato de medida que correspondia a cinco litros e todos os produtos a granel como feijão, milho, farinha, tapioca, vendidos no município seriam pesados e não medidos. Muitos protestos dos desonestos e aplausos dos lesados. Mas, tudo que é bom dura pouco, os “sabidórios” ao invés de colocar na balança o peso de ferro ou de metal instituíram o peso-pedra com 20% a menos. Ou seja, o comprador quando pagava por um quilo levava para casa 800 gramas. Volta o Prefeito com outra solução que finalmente implantou o sistema: comprou dezenas de pesos de 50, 100, 200, 500 e 1000 gramas e distribuiu sem custos para os feirantes. Uma vitória.

Muitas pessoas nascidas nos idos de 1940 esqueceram do senhor Euclides Martins, que vendia a melhor gengibirra do nordeste. É uma bebida feita com fermento de pão, ácido tártaro, rapadura e gengibre escolhido a dedo, que ele produzia em casa com água de chuva. Impreterivelmente às 7 horas ele saia da Rua da Estação com 100 litros num tonel com torneira, transportado no braço em um carro de madeira. Até aí tudo estava dentro do patrão do fabricante doméstico. Ele arrumava a barrica com o líquido e ao lado colocava uma bacia esmaltada com água. Quando os fregueses pediam um copo da gengibirra enchia até o meio e o restante era espuma. Quando recebia o copo de vidro de volta ligeiramente mergulhava na bacia e assim prosseguia até acabar a feira. No final a água virava um caldo grosso. E o mais estranho não se tem noticia que alguém adoeceu com esse descuido na higiene.

A Praça da Igreja, Rua dos Artistas e Avenida Getulio Vargas serviam como palco para tudo. Lembro do Bazar Popular do Seu Pitanga, que vendia miudezas, lojas de tecidos do seu Nezinho (sócio do seu Belarmino), do seu Manoel Barbosa, do seu Augusto Moura, do seu Zezinho Cruz (Casa séria e barateira – frase escrita na sua calçada que permanece até hoje), do seu Avelino, seu Cícero (sócio de seu Mendonça), Loja do Pedrinho Pernambucano. Armazéns do seu Belarmino, seu Pombinho Pinto, seu Elísio Ferreira, seu Pedro Ramiro, seu Filó, seu Zé da Prata. As padarias eram do Odilon (arrendatário do seu Belarmino), Seu João de Castro, que junto com pão e bolacha no período dos festejos de Santo Antônio, São João e São Pedro vendia fogos. Seu irmão Antônio Castro na sua padaria vendia pão de um lado e no outro tecidos. Farmácia só de D. Ziru. Depois chegou seu Soares e sua mãe D. Irene e instalaram a segunda. Quando a cidade não tinha médico D. Ziru embora leiga era a preferida para receitar os remédios. Seu Soares, farmacêutico, era procurado mais para fazer curativos, aplicar injeções no músculo e veia.

Não podiam faltar, para distração da garotada, as exibições dos macacos e cobras ensinados. Em torno desses animais formavam rodas de curiosos para assistir as peripécias e contribuíam com uns trocados para o animador. Em pequenos espaços cobertos era exposta a “Cara que falava”. Em síntese era o jogo de espelhos que refletiam o rosto de uma pessoa conhecida ou não na cidade, previamente, escolhida pelo dono do espetáculo. Cobravam-se as entradas dos curiosos, que ao penetrar no ambiente deparavam com uma cena dantesca: uma cabeça humana piscando os olhos, com a boca aberta, mas, não falava. Quando era perguntada a razão do castigo de viver sem o corpo balançava o queixo em sinal de ignorância. Quando alguém insistia na pergunta respondia que um jacaré enorme comeu suas pernas, braços e tronco. Como não podia deixar de acontecer. Um dia colocaram no “castigo” um amigo meu. Então combinamos que todos da Turma iriam fazer a mesma pergunta a “Cara Falante”: quem era seu pai e sua mãe? Como não tinha resposta, a fila dos “chatos” prosseguia fazendo a mesma pergunta. Daí o inusitado. A “Cabeça” gritou a plenos pulmões: - quem não sabe os nomes dos seus pais são vocês f.d.p..

Havia uma ala que vendia fumo de corda, que não adotou o decreto municipal dos Pesos e Medidas. O freguês cheirava um pedaço do fumo oferecido pelo mercador. Não gostou passava para outro logo ao lado. Quando encontrava o fumo fraco ou forte que desejava pedia: me daí um cruzado. O vendedor media com dois dedos, que correspondia a três centímetros. Cortava e recebia o valor. Quando terminava a Feira as pessoas recolhiam os paus roliços chamados de “sari de fumo” para lenha ou mesmo como arma de defesa. Eram descascados, limpos e envernizados que serviam como cacete e tranca de portas e janela.

Um fato que lembra quanto é esperto o sertanejo aconteceu em pleno meio-dia quando o movimento é intenso aparecia no meio da multidão um senhor alto com enorme cesto na cabeça cheio de velhas panelas, pratos e outros utensílios de alumínio. Gritava, gesticulava, chamando a atenção de todos. Quanto sentia o momento oportuno atirava toda tralha no chão com barulho. Estrategicamente explorava o susto das pessoas e anunciava que vendia a mais forte, a mais durável panela da redondeza. Arte que desapareceu com a propaganda televisiva. Uma pena.

Não devo e não posso esquecer as barracas de comidas. Ao longo do Corte do Trem, no Beco do Açougue lá estavam as barraqueiras com seus pratos feitos com feijão, arroz, farinha, carnes de porcos, bode e galinha, servidos em pé, vez que, cada uma dispunha de um banquinho que comportava duas pessoas. Muitas vezes, ao chegar a casa para almoçar com meu pai, noves irmãos, uma prima que morava conosco, um aguadeiro, uma cozinheira, mais os compadres e comadres, minha mãe aguardava-me na porta e dizia: volte compre três pratos, um para mim, dois para vocês. E concluía: - acabou tudo por aqui.

Acredito que 80% das cartas enviadas por pessoas que moravam em outros estados chegavam com nome do destinatário e logo abaixo a conhecida frase: Aos cuidados do senhor Pombinho Pinto. Este itiubense, forte, além de culto, batizou metade dos meninos nascidos no município. Era tão conhecido e respeitado que todas as brigas acontecidas na feira eram apartadas por ele. Ia, quando chamado, e ao se aproximar dos briguentos em voz alta dizia: - cheguei, parem com isto. Num instante os dois saiam para os lados e a paz voltava. Foi ele que me incentivou ganhar um dinheiro extra nos 15 anos lia e escrevia as cartas recebidas nos Correios - uma por uma para os amigos e compadres enviados por ele. Desde os 12 Anos sabia datilografia. Ouvia a resposta a ser feita e numa velha Remington 22 trabalhava até terminar a missão recebida dele. Bom trabalho. Pouca remuneração, mas, fiquei tão conhecido que aos 25 anos fui convidado para ser Prefeito. Não aceitei por que já tinha outro Projeto de Vida e com certeza não era o político.

Existe uma peculiaridade que destaca o “caos organizado” como área distinta para os produtos de barros produzidos na região da Tapera. São potes, panelas, pratos e arranjos para flores. Outra tradicional área é a feira dos animais na base da troca. Negócio fechado não tem retorno. A não ser que o animal tivesse defeito não aparente. É sempre comentado que o único caso justificado com poucos e bons argumentos, ficou por conta da troca de um jegue grande, com crina aparada, orelhas em pé, olhos vivos, garupa larga adquirido por um fazendeiro daqueles sisudos, com bigode branco, pai de família exemplar. Gostou do que viu e para fechar o negócio fez a última pergunta ao vendedor: este jegue tem algum defeito que não aparenta. Como a resposta fora negativa tirou o dinheiro do bolso pagou e levou para casa o útil jerico. Na semana seguinte voltou ao Campo do Gado como também era conhecida a Feira dos Animais e procurou pelo vendedor do bem arrumado jumento. Quando o encontrou foi logo dizendo trouxe de volta e quero meu dinheiro “na ruma” aqui e agora. O vendedor tentou amparo nos tratados não escritos, que, era tradição, no mercado não desfazer negócios neste ramo. Então o Fazendeiro em poucas palavras resumiu sua queixa: este animal não é sério... e ponto final. Curiosidade geral em torno do primeiro caso de negócio desfeito. O vendedor que sabia do comportamento anormal do “falso-ao-corpo” meteu a mão na algibeira e sem pestanejar devolveu todo dinheiro recebido com pedido de desculpa.

Nossa Feira é informal, barulhenta e variada, que qualquer pessoa, seja Padre, Juiz, Delegado, Prefeito, todas são tratados como o freguês e a freguesa. Pode-se afirmar que aqueles rostos, aqueles costumes fazem parte de um passeio através do tempo, onde tudo é simples e progresso estar por chegar. Para completar a natureza caprichou emoldurando a cidade com nuanças de cores que emanam das nossas serras como um manto paradisíaco, que alimenta e acolhe as mentes tranqüilas da multidão anônima sob orientação divina.

Ali é simplesmente o resumo de uma teia das histórias não contadas, porém, entrelaçadas numa bagunça que tem cheiro, cor, conteúdo e vida própria ao alcance de todos participantes. É um retrato mágico esplendoroso, que, mostra a individualidade, a linguagem e o valor emanado de cada um itiubense, numa força coletiva e compartilhado sem igual.

 

 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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