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O Sabão Pintado e o Alcoolismo

Valmir Simões


Conheci um senhor em Itiúba que, logo cedo da manhã, passava no armazém de meu pai e, antes de começar o seu trabalho, tomava uma dose de Conhaque S. João da Barra e como tira gosto mastigava um dente de cravo e um pedaço de papel manilhinha que ficava sobre o balcão, para embrulhar mercadorias. E eu, ainda garoto, ficava intrigado com aquele comportamento tão diferente para ocultar o cheiro da bebida. Naquele tempo comprar a crédito, através de caderneta, era muito comum e o comerciante que não adotasse esse antigo sistema de venda não teria uma boa clientela. Esse senhor passou a ser um cliente fiel tanto na compra como no pagamento de bebidas e gêneros alimentícios. À tardinha, quando retornava do seu trabalho, fazia aquela paradinha para tomar uns goles e, com o decorrer do tempo, a sua esposa passou a vir buscá-lo e levá-lo aos trancos e barrancos. Passei a observar alguns hematomas nos braços, testa, cotovelos com escoriações e isto me causou uma certa curiosidade. Quando um dia a sua empregada chegou para fazer compras, eu perguntei: - Seu patrão andou caindo em algum lugar? Ela sorriu e disse: - Não? Quem manda tomar umas, o banheiro que o diga. Aquilo me intrigou mais ainda e o senhor passou a beber cada vez mais. A sua esposa não vinha mais buscá-lo e eu passei a observavar cada vez mais mais escoriações no seu corpo. Resultado, a empregada acabou me revelando: - Moço a culpa é do sabão, não vê aquelas 250 g. de sabão pintado que eu venho buscar aqui? Pois é, a mulher dele pede para eu abrir o chuveiro deixar cair bem água e esfregar as 250 g. de sabão todinhas no piso, aí, quando ele entra no banheiro, espatifa-se no chão se ralando e batendo a cabeça pelas paredes. Ela faz issso para ver se ele deixa a bebedeira, pois assim ele ficará com vergonha de mostrar a cara ralada no outro dia diante das pessoas.

 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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