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Crendices, Rezas e Chás

Valmir Simões


As mães têm um cuidado todo especial quando nasce o primeiro filho. Comigo não foi diferente. Muito paparicado pelos meus avós, afinal de contas fui o segundo neto da familia, não tomava nenhum remédio de farmácia sem que, antes, os meus pais consultassem as pessoas mais idosas, já acostumadas ao traquejo de tratar os seus filhos com raizes, rezas e mandingas. Médico só como último recurso. Fui crescendo e habituando-me a essas coisas dos mais antigos. Vejamos alguns remédios, chás e mandingas muito utilizados na época para as doenças corriqueiras e tratadas em casa. Eu experimentei vários, alguns eram até muito engraçados e jamais, nos dias de hoje, eu usaria ou indicaria os mesmos para meus filhos e netos:

Banha de galinha preta (levava ao fogo e extraía a gordura) passava no peito e na garganta para facilitar a expectoração; leite humano para olhos avermelhados e com secreção; casca de romã para liquidar a rouquidão; colocar uma linha vermelha na testa de uma criança para acabar o soluço; mastruz com leite para fortificar o pulmão. Rezas de olhado para a criança que ficava triste pelos cantos. A rezadeira tirava uns galhos de uma planta por nome vassourinha, a criança sentava em uma cadeira e começava ser "benzida" várias vezes com o sinal da cruz. A benzedeira dizia para a mãe: - Está vendo, os ramos estão murchando, ela estava carregada de olhado. Depois ela pegava um copo d’água, ficava de costas para a rua e jogava a água por cima do ombro. Crendice ou não, mas, as pessoas “rezadas” realmente se restabeleciam. Diziam que o chá da lagartixa torrada era um santo remédio para o sarampo, desde que a pessoa tratada não soubesse o que estava ingerindo.

Dentre todos estes remédios, vamos assim dizer, um me deixou, até os dias de hoje, com uma marca. Certa vez acordei sentindo fortes dores nas proximidades dos ouvidos

e com inchaço abaixo do queixo. Minha mãe consultou D. Firmina, que residia na rua que ficava atrás do Tanque da Nação, e ela foi logo dizendo: - A senhora tenha cuidado com isso que é papeira e se recolher pode descer para os testiculos e aí babau, nunca mais ele vai fazer filho em ninguém, eu conheço uns dois que até hoje não tem filho porque a papeira recolheu. Com tanta noticia ruim, minha mãe ficou apavorada e perguntou: - E daí? O que é que eu faço. D. Firmina informou que só conhecia um remédio que era tiro e queda. Ela disse: - Procure uma casa de inchu caboclo, daqueles que fazem a casa de barro nos cantos da janela, junto aos telhados. Quando você derrubar a casa deles apanhe a casa de barro amasse-a juntamente com água, fazendo uma papa que deverá ser passada debaixo do queixo e do pescoço do seu filho e eu lhe garanto que em três dias ele ficará bonzinho, sem mais nada. Eu tinha meus 14 anos, aproximadamente, e fui imcumbido de, junto com o Carlito, um amigo meu, descobrir o inchu para derrubar e recolher a casa de barro. Achamos uma, até com certa facilidade e, com um cabo de vassoura, futucamos e ela acabou caindo sobre a minha cabeça. Fui atacado pelos inchus e recebi uma tremenda ferroada ao lado do nariz que deixou uma marca que guardo até hoje. O ferrão ficou encravado e só foi tirado por minha mãe, quando cheguei a minha casa. A casa do inchu, porém, eu trouxe e a fórmula foi preparada, usada na forma indicada e me dei muito bem.

Apesar de tanto tempo, e com o avanço da medicina, as crendices, rezas e chás podem ter um grande efeito benéfico ainda nos dias de hoje.

 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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