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O Caçador Chorão

Valmir Simões


Naquele tempo não existia Ibama e não tenho nenhuma lembrança de proibição de nenhum tipo de caça. Na feira livre, aos sábados, era muito comum encontrar animais silvestres sendo vendidos vivos ou abatidos, moqueados ou não. Era uma infinidade, tais como: veados, cotias, tatus, perdizes, juritis, etc. Nos finais de semana vários caçadores, amadores ou não, saiam de Itiúba para caçar, ou durante a noite ou durante o dia, em bebidas de juritis ou aves de arribação. Exibiam bons cães farejadores e possantes espingardas e cartucheiras de couro com cartuchos de metal ou papelão, alguns com um carregamento especial para animais de grande porte como onça, por exemplo. Na Fazenda Capoeira, pertencente aos meus tios e avós, existiam muitas aguadas e imensos lajedos onde era muito comum a caça a um tipo de animal não muito conhecido chamado mocó e que tinha sua caça proibida para terceiros, dentro da fazenda. Certo dia meu tio Dão convidou o Zé Querino que, além de exímio pescador, gostava de caçar de vez em quando. O convite foi aceito e lá foram para uma espera de mocó, junto aos grandes lajedos, margeados por enormes jabuticabeiras carregadas de frutos por todo o caule e galhos. Para a espera desses animais é necessário um silêncio absoluto. Os macacos começaram a fazer uma algazarra danada na copa das árvores alimentando-se dos saborosos frutos. O Zé Querino, já perrdendo a paciência, disse para o meu tio: - Rapaz, eu não aguento mais, vou tacar um tiro com minha Lazarina ( tipo de espingarda) naquele macaco lá em cima. Meu tio pediu para ele não fazer isso mas não teve jeito. Ele apontou a velha espingarda e disparou contra o macaco. Cairam muitas folhas e frutos da árvore e, logo depois, o macaco caiu quase aos seus pés, com os olhos abertos e lacrimejantes, com as maõs cruzadas no peito, parecendo uma criancinha morta. Acabou ali a valentia do caçador. Quando ele viu a cena, começou a chorar copiosamente, jurando que nunca mais em sua vida mataria um macaco, pois, para ele, era como se tivesse matado um ser humano.

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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