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A Matança

Idelson José Carneiro


Quando olhava os esboços que fiz para o carro do Ló, a pedido do Bertinho, lembrei-me de uma reportagem, apresentada na televisão, com pecuaristas dos Estados Unidos da América. Era sobre urna mulher que estava “fazendo a cabeça” dos criadores de gado, para eles adotarem um sistema de manejo do rebanho totalmente diferente do que se praticava lá e ainda se pratica aqui. Uma coisa nova, praticada desde o nascimento do boi até o seu abate. Uma mudança radical na relação entre o peão (vaqueiro) e o animal. Desta relação depende a qualidade da carne para o consumo. Pelo menos os grandes fazendeiros do sul do nosso país já estão adotando algo parecido: a ordem é nunca deixar o animal estressado. Até o famoso ferrão (vara com uma ponta de ferro) está abolido. O abate nos frigoríficos são feitos de uma maneira que o animal não perceba. Com um choque elétrico o boi desmaia e depois se completa o trabalho.

Na última vez que estive em Itiúba presenciei uma cena horrível. Fui passear e, casualmente, cheguei perto do prédio da “Matança” e vi que nada mudou. Havia um riacho de sangue fedorento que atraia cachorros e urubus.

Na minha época, os animais eram trazidos de seus pastos pelos vaqueiros como feras, com CAMBÃO (pedaço de pau torto) pendurado no pescoço batendo nos pernas e com a visão obstruída pela CARETA (máscara de couro sobre os olhos). Atravessavam a cidade em direção ao curral. Faziam todo trajeto pelas ruas centrais, parecendo um martírio, pois eram espetados com ferrão a todo instante. Uma relação estúpida de caça e caçador. Hoje fico pensando como estaria a carne desses animais sofridos. No matadouro eram laçados e arrastados para o MOURÃO (pau enterrado no meio do curral). Quando percebia que os maus tratos estavam de volta, o instinto de revolta alertava o boi, mas, nada era feito para acalmar o outrora animal manso. Recebia umas machadadas no “CABELO-LOURO” (parte da cabeça entre os chifres) e ao cair era sangrado. Quando jovem vi esse triste espetáculo uma vez, quando, junto com amigos, fui buscar uma bexiga para fazer uma bola de futebol. Quem não se lembra desse tipo de bola? Nunca mais tive coragem para voltar lá. É um trauma que carrego até hoje.

Escrevi tudo isso lembrando deste trabalho tão bonito mostrando a nossa terra natal em DVD (Itiúba a Terra em que Nasci). O Ló era uma figura interessante, ligada a essa atividade de carne, que ganhava seus trocados transportando no carro de madeira de uma só roda, os “quartos dianteiras e traseiros” dos bois do Matadouro para o Açougue Municipal. Um trabalho digno. Crueldade era como o boi se transformava em comida.

É sabido que se mata boi, cabra. porco, galinha por necessidade. Mas, o que incomoda mesmo são as maneiras como essas coisas são feitas. Ai pode entrar a ONG SERRA DE ITIUBA para comentar, discutir, criticar, orientar e sugerir alguns caminhos mais civilizados que possam ajudar nas mudanças dos usos e costumes invisíveis para sociedade local.

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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