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Primeira vez no cinema

Humberto Pinto de Carvalho


 

O cinema quanto visto por quem entende pode e deve ser descrito como a “Sétima Arte”, contudo, há quem descreva a sua primeira vez no cinema assim:

Cinema é uma casa grande cheia de luz e com muitas cadeiras enfileiradas, com uma só porta de entrada e muitas saídas. Escura por dentro durante o dia e a noite. Ao entrar no escuro ninguém reconhece ninguém. Pior é quando se deixa o salão. A vista fica cega. Demora um tempão para acostumar com a claridade de fora. Quem entra senta logo junto aos outros para não incomodar. Todos ficam calados e voltados para a parede à frente. Logo começa uma barulheira infernal para desviar os sentidos de quem assiste os retratos em movimento desbragado. Assim quem chegou passa a acreditar no que está vendo e não terá dúvida de que tudo aquilo é verdade. As figuras lá na parede branca parecem feitas de luz. Falam e demonstram suas pequenas fraquezas e grandes tolices. Quieto, o casal, sem demora, identifica um fortão e uma bonitona. Ele pensa: aquele sou eu. Ela retruca: a mocinha parece comigo, Ambos ficam iludidos pela cena e, sem sentir vergonha nenhuma, faz de conta que pode enfrentar qualquer castigo de Deus. Tudo é válido na escuridão. Vive cada um a vida que jamais viveu, nem viverá. Pois ali todos são poderosos, valentes, justiceiros, ativos, destemidos, com disposição para tudo vencer. Esta sensação de temor e euforia chega e desaparece, sem causar inquietação. Razão para se justificar que a luminosidade é pura magia.

É impressionante como todo mundo que ali está acomodado, fica em silêncio quase sepulcral, com os olhos abertos admirando tudo. É assim que todos vêem, com alegria ou medo, o que passa a sua frente, sem nada poder fazer para interromper ou interferir. Mesmo assim se julgam que são melhores que todos os personagens expostos na parede, que chama tela. Sem querer torce ou odeia, sempre com os olhos grudados em tudo que acontece com os seres de luz. Luz que engana e transforma pobre em ricos e ricos em malvados. A ilusão deixa todos embriagados sem saber o que é verdadeiro ou não. Matar, beber, brigar, destruir tudo é sensacional para homens e mulheres que pagam ingressos para passar o tempo. Entendem que é isso o melhor exemplo do progresso, que veio para educar e distrair, quando, deveria esquecer quanto antes, tudo que viram, pois, aquela máquina que produz a fala, o movimento, o som, também fabrica idéias fracas sem força que alimenta o ego sedento de novidades dos seres ditos inteligentes, que somos nós.

Foi assim, que um homem e a senhora sua esposa, como sobreviventes da escola da vida, sem tempo para aprender ler ou escrever, encafifaram e descreveram uma sala de projeção, que viram e não gostaram, mas, pelo menos tiveram a coragem de revelar sem medir palavras a um antigo dono de cinema no interior a sua verdade, que, o letrado afirma que é arte. Depois todos voltam para suas casas e passam horas vendo televisão, filha adotiva do cinema, que um anônimo afirma ser apenas mais uma máquina de fazer maluco. Bom mesmo é pensar na impressão que ficou que existe algo escondido por trás das figuras e que nada acontece de vez. É sempre uma só passagem em movimento rápido, que não se repete até o final. Uns vão embora quando ficam cansados. Outros abandonaram a casa sem nenhuma explicação. Nossos narradores foram os últimos a sair, sem chegar a nenhum acordo sobre quem e quando procuraria emprego de artista de cinema.

Porém, interessante mesmo era perguntar ao Mudo da Gracinda, filho da mulher do João Cambão, como assíduo freqüentador não pagante do Cine-Itiúba, se gostou ou não do que viu. Não se pode transferir para as letras, os trejeitos, caretas e outros gestos que ele sempre usava para mostrar que entendeu e podia interpretar tudo fora da tela.

Portanto os ingênuos, os sabidos, os menos inteligentes e os que não falam ou ouvem integram o mesmo ambiente e o modo de ser de todos os amantes das belas artes. Finalmente o casal que tudo observara concluiu afirmando que os orelhudos apressados com certeza não gostaram do filme, embora, não saibam explicar por quê. Enquanto uns escondem suas indiferenças, outras passam a ser formadores de opiniões, divulgando sem nada receber as maravilhas exibidas. Resta para nós habituados a acreditar nas mentiras dos filmes se curvar a sabedoria popular que diz: briga de marido e mulher não se mete a colher...

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- O PING-PONG DA DUPLA "ZECÁQUIS"(pág.27) - Fernando P. de Carvalho
- LUIZ GONZAGA, CIDADÃO ITIUBENSE (pág.136) - Fernando P. de Carvalho
- UMA NOITE NO CINE-ITIÚBA (pág. 93) - Fernando P. de Carvalho
- O ZEZITO DO CINEMA (Pág.187) - Fernando P. de Carvalho

- O CINEMA (pág.02) - Fernando P. de Carvalho
- O CINEMA E O SELO DE ESTATÍSTICA (pág.183) - Humberto Pinto de Carvalho
- FILMES "SÓ PARA HOMENS" (346) - Fernando Pinto de Carvalho

 

 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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