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Usos e Costumes

Hildebrando Pinto de Carvalho (Banduca)


Vou contar uma das passagens da minha infância, porém, devo ressalvar que não quero ironizar os costumes e figuras públicas da época, apenas contribuir com mais uma verdade comum na nossa querida Itiúba, nos anos que antecederam a Segunda Guerra Mundial. Numa época na qual o nosso município se orgulhava de ter uma zona rural com boas colheitas, grandes criatórios de vacas, ovelhas e cabras, também despontavam as oportunidades de furtos e roubos. Para combater os ladrões as autoridades policiais mantiveram algumas tradições que hoje seriam condenadas pela população se voltassem a ser aplicadas. Tenho de reconhecer que elas buliam com os brios dos malandros. Em síntese era assim: quando sumia um bode, um carneiro ou um boi, o criador prejudicado procurava a Delegacia de Polícia e prestava queixa. Quando tinha qualquer suspeita indicava as pistas para facilitar o trabalho das investigações. Em 80% dos casos o meliante era encontrado com o animal vivo, escondido para abate clandestino. Alguns larápios apressados matavam os bodes ou qualquer outro bicho de pequeno porte, enterrava a cabeça, fato e cascos e cobria tudo com folhas e garranchos para camuflar. Vendia a carne e a pele, tendo o cuidado de cortar as orelhas que denunciariam os sinais chamados de “mossas”, (orifícios e pequenos cortes) que indicavam a marca do dono. Mesmo assim, os trabalhos e interrogatórios quase sempre chegavam ao ladrão que, preso na cadeia pública, era processado e, como castigo, saia escoltado pelas ruas, com o couro do animal nas costa e um grande chocalho pendurado no pescoço para servir de exemplo. Quando se tratava de galinha ou peru a cena era chocante. O infeliz desfilava com as penas das aves coladas nas suas roupas e sempre acompanhado por um grupo de meninos gritando pega o ladrão. Também era comum, mas, não tenho como provar, que no roubo de um cavalo, vaca ou boi, o castigo era deportar para bem longe o individuo autor do delito, com a sentença: “se voltasse ao município seria eliminado”. Tempos estranhos para nós que já estamos acostumados com roubos e assaltos á luz do dia, em todos os quadrantes. Hoje não se procura a autoridade policial por saber de antemão que nada será feito e se for feito e se chegar ao culpado, ele não vai preso e, se for, antes de ser lavrado o inquérito o elemento estará solto amparado por força de lei.

Para refrescar a memória com coisas menos traumáticas, narro um episodio que aconteceu comigo na feira livre de todos os sábados, na mesma época. Vi chegar um jegue com cangalha com duas varas no sentido rabo a cabeça. Dos dois lados estavam penduradas muitas galinhas, frangos, galos e capões amarrados pelos pés e com as cabeças para baixo. Era costume o uso deste tipo de transporte por quase todos os pequenos fazendeiros. Num ímpeto de jovem defensor das pobres aves, falei com o condutor do animal que aquilo era uma malvadeza com quem não podia se defender. Ele ficou calado e depois de longa espera me respondeu: - criei minhas galinhas para vender na feira. Devo matar lá na roça, colocar num saco, com tripa e tudo e quando aqui chegar despejar no chão e aguardar comprador? Acho que ninguém vai querer comprar, pois as donas de casas só querem bicho vivo e se bulindo. Com certeza os meus vão ser considerados carniças. Fico aqui, com tudo infusado e no prejuízo. Que Nosso Senhor lá no céu tenha piedade do senhor tão jovem e que já fala tanta besteira.

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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