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Três Verdades

Humberto Pinto de Carvalho


Quando afirmamos que entre os vales e planaltos da Serra de Itiúba não existem mentirosos, poucos acreditam e muitos acham que é exagero. Assim sendo, ficamos numa encruzilhada para narrar três conversas verdadeiras ocorridas com alguns personagens ainda vivos. Mas, a bem da verdade e para que não desapareçam no caldeirão dos esquecidos, vamos colocar aqui tudo aquilo que nossa memória teima em guardar.

Ressalvamos que não revelaremos os nomes nem quando ocorreram esses casos. Não só por respeito às pessoas como, também, por julgarmos desnecessária qualquer alusão que venha a magoar qualquer dos itiubenses envolvidos nesses episódios.

Tempos atrás um estudante de medicina, filho da Terra, preste a receber o seu “canudo” gozava suas merecidas férias na casa dos seus pais e por bondade atendia alguns amigos diagnosticando e medicando, com ótimos resultados. Com isto angariou boa reputação, sem nada cobrar como médico dedicado, caridoso e, acima de tudo, competente na profissão que abraçou. Certo dia, estava conversando com algumas pessoas, quando, aparece um velho conhecido do seu pai. Ele era conduzido por um dos seus filhos, que se revezavam nesta nobre missão. Foi chegando e, ao reconhecer a voz do médico, interrompeu toda conversa e disse alto e bom som: - Doutor me desculpe, também tenho uma verdade para lhe contar. Nasci na roça, trabalhei muito, casei e fui abandonado pela mulher. Até hoje, não soube o motivo dela haver saído de casa. Graças a Deus tenho os filhos, que são meus anjos de guarda. Venho lutando para não me desesperar, com a pouca sorte que me acompanha há anos. Somente agora descobri e luto para entender a razão de ser um deficiente visual, sem dinheiro, sem casa certa para morar e ainda por cima, Doutor, sem “tenência”. Aí parou e baixou a voz quase em prantos concluiu: - Meu doutorzinho, pelo amor de Deus, pelo bem que quer aos seus pais, me arranje um remédio para que eu possa alcançar novamente os prazeres da vida. Nosso esculápio e os outros ouvintes não riram, mas, após o silencio perturbador, entenderam com todas as letras o que o pobre homem desejava...

Vem outra que ficou na história itiubense. Era um exímio músico, tocava flauta e gaita. Na Filarmônica local tocava caixa, prato ou bombo. Um virtuoso com pouco reconhecimento, porém, um espertalhão de mão cheia, quando chegava sua hora de dormir. Contam e afirmam que ele na noite anterior participou de uma festa dançante como músico. Perdeu a noite e ainda trabalhou durante o dia. Lá para tantas quando se preparava para deitar foi surpreendido com a chegada de um casal amigo que não aparecia fazia tempo em sua moradia. Fez as honras de casa, mandou sentar, ofereceu café, conversa vai e conversa vem, e, nada dos amigos anunciarem a retirada. Agüentou o máximo o sono que provocava o abrir de boca e também uns cochilos. Contudo, o casal não notava o seu desespero por uma cama. Até que não suportou e ao levantar em voz alta disse para sua cara-metade: - Raquel meu bem, por favor, pare com tanta conversa, que nossos amigos querem ir dormir... Não se sabe como a amiga recebeu a indireta. Mas, ao despedir na porta o amigo sussurrou no ouvido do dorminhoco: - A farra de ontem foi boa, mas, não precisava exagerar e interromper um papo que estava começando e poderia se desdobrar até bem mais tarde.

Nesta última temos de encarar alguns pormenores antes da narrativa. O doente era solteiro, morava numa pequena casa, carregava água para banho e para fazer comida. Não contava com ninguém para ajudar nos afazeres domésticos. Era forte, sempre trabalhou para se manter. Como o tempo não perdoa ninguém ao atingir os cinqüenta anos de idade apareceram às primeiras doenças. Como não aparecia na rua que morava os vizinhos preocupados foram a sua residência para verificar o motivo do seu sumiço. Nosso conterrâneo estava queimando de febre e quase desfalecido. Logo foram tomadas as providências de praxe. Ao chegar ao posto Médico de imediato foi colocado numa ambulância e encaminhado ao hospital regional. Em se tratando de uma pessoa boa, muitos queriam notícias suas. Em especial do seu estado de saúde. Então, como o Hospital era distante de Itiúba, um amigo foi escolhido para fazer uma visita e trazer notícia. Qual não foi a sua surpresa quando chegou à Portaria e perguntou pelo paciente fulano de tal. A atendente fez cara de tristeza e falou: - Ele desde que chegou aqui vem melhorando aos poucos. Os médicos acham que fisicamente ele está bem, porém, quando se fala em dar alta ele tem uma recaída e fica sem querer falar. Mesmo com esta informação o enviado respondeu que estava ali para ouvir e ver as condições de saúde do amigo. Introduzido no quarto encontrou o nosso doente triste e cabisbaixo. Mesmo assim perguntou como se sentia, pois, queria levar a sua cidade natal as boas notícias. Surpresas das surpresas. Ele sentou na cama hospitalar e disse para fechar a porta. Atendido, chamou o porta-voz dos seus vizinhos para bem perto e baixinho disse: - Não conte para ninguém. Estou bem, mas, aqui é bom demais. Além disso, tem comida na hora, banho, remédio. Vou ficar por uns tempos aqui. Diga por lá que não é nada grave. Posso demorar um pouco para sair... Só diga a verdade à velha Nana, para sossego dela e mais ninguém...Deitou na cama e falou Deus abençoe a todos e até mais ver.

 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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