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A Assombração do outro mundo

Valmir Simões


Naquela velha estação ferroviária de Itiúba, quando não tinha mais movimento nos horários dos trens, ficavam várias pessoas conversando, junto ao janelão da frente. Eu, ainda rapazinho, dava muitas gargalhadas dos casos contados pelos mais velhos, afinal de contas eu residia bem em frente à estação férrea e tempo era o que mais sobrava para mim e muitos outros que não tinham o que fazer. Recordo-me muito bem, ainda, de alguns amigos daquela época que participavam das histórias que eram contadas. O João Martins era uma pessoa que já gostava de contar os “causos” ocorridos com gente da estrada de ferro, aquelas pessoas que iam à noite trocar a bandeira da linha, ou seja, fiscalizar o trecho antes do trem passar, e levava sempre uma bandeira vermelha e outra verde e uma lanterna no formato de uma caixa de sapato, tendo no interior um candeeiro a querosene e por fora duas lâminas de vidro transparente, para clarear o caminho e um vidro vermelho e outro verde. A história se prende a um destes fiscais de linha que em certa noite de lua cheia foi fazer uma dessas vistorias no trecho após a Fazenda Grotão, passando por certo local, ouviu um gemido, parou e ficou observando, levando em uma das mãos a lanterna e duas pequenas bandeiras, na outra, um facão de vinte polegadas. Outro gemido, ele se afastou da moita, o seu inseparável cachorro gruniu, botou o rabo entre as pernas e ficou deitado junto ao dono, seus cabelos ficaram em pé, mas mesmo assim a coragem foi maior do que a covardia, partiu para a moita quando abriu o mato disse: Eh moço, o que é isso?, naquele momento se viraram para ele duas caveiras que estavam brigando entre sí. Nisso disparou numa correria danada dentro do Calumbí se rasgando e se ferindo todo, e foi achado no outro dia desmaiado e o cachorro tomando conta.

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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