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Nomes Desgastados pelo Tempo

Herbert e Hildebrando Pinto de Carvalho


Hoje todos os itiubenses que estão na fase dos “entas” lembrarão com saudade as palavras usadas nos colóquios diários nos tempos da vovó. Para esta fase deste trabalho contamos com colaboração de poucos. A razão deve ser as alterações ocorridas nas últimas décadas no ambiente do recesso do lar, como era chamado o cotidiano das famílias, voltadas para suas religiões e suas obrigações caseiras. Esperamos que outros relembrem termos interessantes para enriquecimento do assunto em pauta.

A linguagem, como um ser vivo, faz com que as palavras empregadas no dia-a-dia apareçam e desapareçam. Perdem a razão de existir na região. É sabido que tudo no mundo físico passa a ter sentido figurado à medida que a palavra se distancia do seu significado.

 

Para começo de conversa vamos falar dos antigos remédios. Quem não se lembra do Jeca Tatu. Ficou bom e forte após tomar o ancylostomina para combater a verminose. Basilicão – pomada vendida em latinhas lacradas ou a retalho na Farmácia de D. Ziru, para aplicação em “cabeça de prego”, tumor, espinho ou unha encravada. Ganhou o apelido de “Puxa tudo”. Pílula de São Pelegrino, uma pela manhã, em jejum, era um santo alívio para prisão de ventre. Bromil para tosse braba ou defluxo. Era conhecido como o “amigo do peito”. Pílula de Vida do Dr.Rossi, as pequenas que resolviam.

Água Inglesa – receitada para mulheres paridas durante o resguardo. Saúde da Mulher, para as cólicas mensais hoje conhecidas como TPM (tensão pré-menstrual). Emulsão de Scott – um óleo branco, com gosto de peixe ardido, fazia parte do receituário doméstico para levantar as forças de jovens e velhos. Óleo de rícino, um purgante anual, quase obrigatório no inicio das aulas. Era repugnante. Havia um ritual para ser engolido. A mãe da garotada comprava o fedorento óleo de mamona e o escondia em casa. Logo providenciava os ingredientes necessários. Reunia a prole e com uma palmatória de madeira na mão chamava o mais velho dizendo: - Segure esta chave de ferro na mão esquerda e esta banda de laranja na direita. E sem meias palavras ordenava: - Abra a boca. Uma colher grande do óleo era despejada goela a baixo. Quem cuspia era obrigado a tomar outra dose. Até hoje não se sabe a razão do ritual da chave de ferro. O efeito era rápido. Daí o motivo da segunda “vítima” esperar que o “quartinho”, como era chamado o hoje sanitário doméstico, fosse desocupado.

Como estamos no campo das reminiscências, vamos lembrar das velhas marcas de alguns utensílios: tacho de cobre para fazer doce. Pilão de pau ou de pedra para moer café torrado e fazer paçoca de farinha, carne e toucinho. Gamela para lavar talheres e pequenas peças de roupas. Colher de pau de vários tamanhos para mexer comida. Moedor de carne e milho movido a “feijão” como se dizia. Necessitava de força e jeito para girar a manivela. Terrina – vaso de louça para servir sopa quente. Almofariz peça de bronze para triturar temperos. Chaleira – recipiente de cobre ou louça para chá. "Chaculateira" era soletrada por um bêbedo que quando sentia fome batia nas portas das casas e em voz alta soletrava assim: chaco-chaco-laço-laco-tei-teira.

É bom não esquecermos das ferramentas facões, canivetes, enxadas, picaretas, chibancas, estrovengas das marcas jacaré, duas-caras, corneta. Uma marca lembrada é a Singer estampada nas máquinas de costuras movidas com os pés ou com as mãos postas na roda, que fazia o trabalho dos atuais motores elétricos. Essas máquinas merecem um capítulo à parte pela sua utilidade numa época que as toalhas de banho, de rosto, vestidos, calças e muitas outras peças do vestuário dependiam da habilidade das costureiras e da eficiência dessas geringonças.

Os jovens de ontem relembram seus sabonetes de nomes Gessy, Lever, Vale-quanto-pesa, Eucalol. Esse último trazia em suas caixas estampas coloridas, com paisagens diversas. Havia, também, um aportuguesado “Laf-boy” que era uma mistura de essências de cheiros e cleolina. Também os cabelos recebiam a Brilhantina Glostora. Desodorante só Leite de Colônia ou de Rosa.

Havia uma linha de produtos para mesa como pratos, canecas, xícaras, bules e tigelas esmaltados, revestidos com uma espécie de tinta apropriada, para agüentar calor e lavagem com sabão. Não quebravam como as louças. As donas de casas sempre apontaram um grande defeito que era soltar pequenas lascas desse esmalte quando qualquer peça caia no chão duro das cozinhas.

E, para mexer com os respeitáveis cidadãos itiubenses, avôs dedicados e defensores da natureza, lembramos o quixó, mundé, arapuca, munzuá, jequi armadilhas que faziam parte do cotidiano dos caçadores sessentões de hoje. Quixó era um buraco no chão com tampa falsa que era feito na trilha dos preás. Quando um bicho pequeno como coelho ou mocó pisava em qualquer das pontas caia no fosso e virava ensopado. Mundé er um alçapão para pegar peixes em água corrente. Arapuca de pau, feita de varas e fibra de caroá era armada no chão com uma pequena verga. Quando o passarinho tocava na isca era coberto e preso. Munzuá, espécie de cilindro feito de talisca retirada da palha de ouricurizeiro. O peixe entrava e não saía. Jiqui, confeccionado em forma afunilada, era outro instrumento usado por pescadores nas águas paradas das lagoas.

Relatar estas reminiscências burlescasé uma maneira de contribuir para melhorar a compreensão da história local. Essas informações são escritas de forma simples, pois é sabido que poucos admitem que a língua falada se transforma rapidamente face o grande volume de imagens e dados disponíveis nos meios eletrônicos de comunicações. Certo é que gostamos de ser ouvidos. Dai se caprichar na conversa com os outros usando termos novos. O sotaque é que varia de acordo com a região geográfica na língua portuguesa que é uma só em todo Brasil. O timbre de voz é bem diferente aqui e acolá, confirmando que a palavra se transforma a mercê do seu uso.

Para refrescar a memória dos mais velhos lembramos que não havia refrigerante e sim refrescos de limão, laranja e outras frutas da terra, a gengibirra e a gasosa, bebidas sem gelo, vendidas no meio da feira. Bons tempos aqueles quando as famílias itiubenses sentavam nos passeios das suas casas para prosear.


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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

fpcarvalho@globo.com