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CORAÇÃO DE BIZUNGA

Valmir Simões

A meninada da minha época gostava de caçar com badogue. Nas pastagens, fundos de quintais e nos sopés das serras que cincundavam a nossa terrinha, existia uma fartura de animais e aves, mas, havia uns amigos espertos que costumavam sacrificar as andorinhas da estação da Leste, por ser mais fácil e mais abundante. Bastava chegar embaixo dos fios, mirar , dar uma badogada e pronto, a pobre coitada caia no chão Era, então, levada para casa e tratada. Retiravam os pés e as cabeças delas para serem vendidas aos passageiros da estrada de ferro como rolinhas fogo-pagou. Era retirado um barro escuro lá do antigo Tanque da Nação e, nas calçadas das ruas, eram feitas as bolinhas de barro que ali mesmo secavam, sob o sol escaldante. Existia uma lenda segundo a qual a pessoa que engolisse o coração de bizunga (beija-flor) ficaria craque na pontaria e jamais erraria uma badogada em pássaros ou animais rastejantes. Eu me interessei pelo assunto, pois tinha inveja dos colegas que eram exímios atiradores e a fama deles corria dizendo que eles eram assim “certeiros” porque engoliram um coração de bizunga. Um amigo meu, aproveitando a presença de um lindo beija flor (bizunga) sugando uma flor de pinheira, deu-lhe uma badogada e, logo que a coitada caiu, tratou de tirar o coração ainda quente e me deu para engoli-lo. Ao colocá-lo na palma da mão, meu pai agarrou-me pelas orelhas e tomei uns tabefes e correadas de cinturão pelas pernas. Pouco tempo depois eu soube que os pais do meu amigo fizeram o mesmo com ele. Depois dessa, preferi continuar sendo um péssimo atirador e nunca mais quis engolir um coração de bizunga para ser craque na pontaria

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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