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O Sumiço do Pinto

Humberto P. de Carvalho

 

 

Conheci um garoto nascido no Pará, que veio morar em caráter definitivo em Itiúba na década de 1940, quando seu pai, aposentado como Juiz de Direito, resolveu retornar a terra aonde nasceu. Seu pai itiubense e mãe descendente de índios formavam um casal com filho e filha, que moravam na Rua do Corte e foram nossos vizinhos. Ele era um menino fortão e bem humorado. Sempre procurava briga com quem molestasse qualquer um de nós. Certo dia não apareceu para participar das costumeiras diversões de pobres: cavalo de pau, boi de osso, empinar papagaio, jogar pião e gude. No segundo dia também não saiu de casa. Fui designado pela Turma para saber a causa. Lá fui eu com os meus 10/11 anos visitar o amigo, que se dizia doente. Encontrei o coitado na cama e enrolado até o pescoço na cocha de retalho em pleno verão. Logo notei que ele escondia qualquer coisa para os seus pais e a irmã. Sentei numa cadeira ao lado e sem muita pressa passei a relatar para ele, que, os nossos colegas queriam a sua presença no sábado para o campeonato de pião não unha. Ele não mostrou nenhuma reação. Fui à cozinha falar com a sua mãe sobre o assunto, porém, ela apenas respondeu estranhar o comportamento do filho. Não tinha febre, comia e dormia bem. Voltei ao quarto e já estava pronto para retornar sem obter qualquer informação, quando, ele pediu para fechar a porta. Atendido. Falou que sofrera um contra-tempo, três dias antes. Disse que levantou cedo para ir ao currar olhar o empregado do seu pai tirar leite das vacas. Baixou a cabeça e com o queixo apontou para as pernas. Ficou quieto e começou a chorar alto. Seu pai apareceu e ralhou comigo pensando que a minha presença incomodava o repouso. Notando o constrangimento causado pela minha visita pedi desculpa e levantei da cadeira para sair. Foi quando o rapaz sentou na cama e gritou a plenos pulmões: meu pinto sumiu. Com isso criou uma situação confusa. A mãe perguntava que pinto? O pai falava alto que conversa é esta de pinto?. Todos da casa apareceram no quarto para tristeza do “doente”, que, quando mais pediam explicações ele se agarrava ao lençol para cobrir o corpo. A cena durou meia-hora e ninguém sabia como resolver o assunto. Quando todos resolveram parar com o falatório, o caseiro que tomava conta do pasto e do curral apareceu e pediu para conversar em particular com o pai. Saíram juntos e quando regressaram ao quarto disseram fique e aguardar do lado de fora. Ficaram com o garoto. Logo em seguida a porta abriu e dois consentiram que eu entrasse.

Meu amigo estava sentado e com as mãos protegendo “seus documentos” sem querer deixar que o pai examinasse seu corpo. Naquele instante não compreendia a real situação. Então fui convidado para dialogar com o nosso enfermo. Conversa vai conversa vem e lá para as tantas ele abriu a boca e disse com tristeza: até para fazer xixi está difícil. Compreendi em parte o acontecido e pedi para mostrar para seu pai como ficou... Lentamente levantou a cocha que cobria o seu corpo e mostrou a região do pinto. No inicio não vi nada. Chamei a atenção do pai que pediu um candeeiro aceso para iluminar o ambiente. Olhou de perto e exclamou: quase não se nota o que houve. Sumiu mesmo o negócio do menino. Outra confusão se formou com gente chegando e perguntando. Quando tudo voltou ao normal o médico local que havia sido chamado afastou todos os intrusos e ficou só comigo e meu amigo. E ordenou: abra as pernas não tenha medo. Esta doença psicológica que provoca retenção peniana é conhecida desde os tempos dos faraós. È provocada nas manhãs frias e se ele tivesse brincado com qualquer adolescente tudo teria voltado ao normal. È só uma questão de tempo. Pegou um calção que estava pendurado na cabeceira da cama e disse: vista e levante agora. Não quero choro nem vela... Vai tomar um banho quente e se enrolar nas cobertas para suar muito. Assim foi feito. O bom amigo gordo foi conduzido ao banheiro e lá ficou trancado por meia-hora. Saíram os curiosos e acompanhei o Doutor que era meu padrinho de crisma e perguntei na minha santa inocência: ele vai ficar bom e ainda pode montar cavalo de pau, jogar gude e empinar arraia? Ele na pressa que tem todos os médicos do interior balançou a cabeça e respondeu: Amanhã ele pode e quando crescer vai casar e criar os seus filhos. Espero que não sejam tão gordinhos como ele. Com alívio nossa turma na Rua do Trem recebeu o diagnostico e ”cura” do único caso que tenho notícia até hoje. Mesmo assim, convém rezar para não alimentar o complexo do mito da invisibilidade do pinto, que não pode em nenhuma circunstancia da vida trabalhar como “boneca de pano”, pois, a firmeza é o essencial. Assim devemos espantar as virtudes e atrações do invisível que é base da Síndrome do Desaparecimento do Pinto Alheio.

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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