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O Pedinte

Valmir Simões

 

Eu era bem moço, mas, lembro-me das coisas daquele tempo, como se fosse hoje. Existia um senhor que andava montado em um jumento pedindo esmolas pela nossa cidade, de porta em porta. Tinha uma deficiência física em ambas as pernas e notava-se que dos joelhos para baixo não havia firmeza para pisar no chão e permanecer com o corpo erguido. Carregava duas muletas, que tinham os apoios para os braços forrados de vários pedaços de tecidos de diversas cores e nas extremidades enormes porcas de ferro. Na garupa do seu animal ficava um alforje de couro e, trespassado em seus próprios ombros, duas mochilas de pano, sendo uma para farinha e outra para feijão, não dispensando, também, um prato de cuia de queijo vazio. Montado no jerico chegava às proximidades das janelas das residências e pedia: - Uma esmola pelo amor de Deus, meu amo! Estirava o braço com a cuia e as pessoas sempre davam farinha ou feijão, dificilmente nas casas era dado esmola em dinheiro o que na rua era mais comum. Como agradecimento pelo ato de caridade dizia: - Deus lhe pague. Quem via aquela pessoa educada para pedir, não tinha idéia da valentia e estupidez quando bebia. Tinha o hábito de todo sábado marcar presença na feira de Itiúba, vendendo abóbora, molhos de maxixe e feijão de corda, o que, naturalmente, levava as pessoas a pensar que não fazia sentido o ato de pedir esmolas durante a semana. Algumas pessoas que o conheciam bem repudiavam aquele comportamento. No final da feira enchia a cara de cachaça e costumava procurar briga desacatando as pessoas e tendo como arma as muletas, com as porcas de ferro. Enraivado ninguém se atrevia encostar, pois ficava girando-as em toda direção. Não consigo lembrar-me do nome dele. Recordo-me que numa dessas arruaças foi conduzido para a cadeia por ter quebrado a cabeça de uma pessoa numa briga de feira e esbravejava dizendo que só iria preso com o seu jumento, Seu Zé de Souza, o soldado mais paciente que eu conheci, prendeu o elemento na cela e deixou o jumento amarrado em um pedaço de trilho enterrado no chão, junto à cadeia.

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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