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Experiência Sofrida

Humberto P. de Carvalho

 

Este é um relato sobre o modo de vida, esticado ao limite, num painel das diversidades presentes no dia-a-dia de um jovem itiubense, fadado ao óbvio comparado e exigido hoje. Poderia acrescentar sem retoque que é focado na experiência do autor. Escrever a historia do nosso município é necessário. Não a gloria de qualquer itiubense em particular. Tudo se resume em ser revolucionário em seu tempo. Hoje nada é melhor ou pior, toda cultura, lentamente, é propensa a atingir o progresso material e espiritual de um povo.

Havia exageros é bem verdade.Certo que havia banho com água salobra de tonel com sabão de soda, o mesmo que, também, servia para lavar roupa. Corpo, calças, camisas limpas todos os dias e pés no chinelo asseguravam boa saúde. Não havia disciplina rígida para controlar as brincadeiras fora de casa que passavam de geração em geração, e como era bom participar de futebol sem joelheira ou caneleira, jogado com bola de bexiga de boi cheia de ar e enrolada com cordão, disputado na praça, com traves do gol marcadas com pedras. Sempre foi mantida a tradição que somente o dono da bola teria escalação garantida e ninguém se queixava. Corridas e mergulhos escondidos nas cacimbas do riacho que corta a cidade, subir e descer as serras para caçar passarinhos. Montar e cair de jegues sem sela. Tudo era espontâneo. É como se soubéssemos e não sabíamos que estávamos escrevendo as nossas historias. Todos éramos livres para quase tudo e hoje não lembramos quem foi ontem o melhor. Era e é uma trajetória de erros e acertos, vez que tudo se move para alem dos limites no aprendizado e na aplicação das lições. Freqüentávamos a escola Góes Calmon na Rua da Estação das oito às doze horas. No período da tarde o tempo era aproveitado com conversas, brincadeiras e estudos. Não havia rádio, vídeo, computador, Internet e televisão que substituíram as sessões de leitura nos lares e ninguém mais conta histórias para as crianças adormecerem. Tudo dependia da criatividade de cada um que despontava e ajudava a “matar o tempo livre”. Tempo que as crianças vinha ao mundo pelas mãos das parteiras, sem letras, porém competentes e dedicadas.

Somos sobreviventes de uma época que se comia manteiga com pão ou pão com manteiga de garrafa, muito açúcar, ovos, toucinho, banha de porco, lingüiça, carne de charque e pirão do caldo do “osso corredor” assim chamado por escorrer muita gordura quando fervido na panela de barro no fogão a lenha . Bebia tubaina, gengibirra, gasosa, refrescos de frutas sem gelo. Mesmo assim, poucos poderiam ser classificados como gordos. Risco de vida como brincar na linha do trem e conviver com cachorros e gatos sem vacinas, que comiam a mesma coisa que nós, e cá estamos sem problemas de saúde. Não morria cachorro com doenças contagiosa e muita menos nós. Transporte só na canela ou de bicicleta sem capacete, para visitar os amigos fora da cidade. Tempo bom que não era preciso bater na porta da casa do amigo para entrar. Coisas simples como passar de ano na escola para levar alegria para casa e quem perdia o ano levava bronca, mas, não necessitava de psicólogos e muito menos de psicoterapia. O castigo era repetir o ano e voltar à classe sem os antigos colegas. Tínhamos liberdade, sucessos e fracassos que o dia-a-dia ensina sem cobrar nada, sem hora para terminar e até bancar o herói para tirar o amigo do perigo, mesmo sem ter noção dos riscos. Dentes, braços e pernas quebradas mais escoriações por todo corpo não eram motivo para choro. O que valia era receber a atenção dos outros da mesma idade para aperfeiçoar o caráter que viria ajudar a encarar a vida adulta com suas armadilhas ocultas. Não existia água encanada jorrando nas torneiras das casas. Água de beber vinha das fontes Garapa, Tanque Velho, Poço do Cachorro, Vintém, Cacimba Funda ou dos tanques construídos para receber água da chuva. Armário não tinha chave e remédios eram aguardados com detergentes e “mata-ratos”. O quarto de dormir era cheio de camas de ferro pintadas com tintas contendo chumbo e outros tóxicos. Não tínhamos repelentes e se queimava “cocô seco de vaca” para a noite espantar as muriçocas com a fumaça. Relógio de parede marcava cada hora com som parecido com uma badalada de sino e se dava corda todos os dias para não parar. Fotografia era em preto e branco

Hoje a garotada está voltada para o consumo de celular, mp3, game, filme de terror. Nas rodas dos adolescentes não há dialogo sobre assuntos ligados ao presente ou futuro de qualquer um. Emendam frases sem dar continuidade ao sentido do papo furado. Falamos dos bens nascidos. Imagine aqueles que nascem em casas de taipas, sem escola, sem esperanças. Temos que recordar o tempo bom que menino namorava meninas e a mulher precisava de marido para ter filho.

Doentes, feridos e mortos eram transportados serra a baixo em rede esticada num travessão de madeira carregada nos ombros dos voluntários.

Somos os sobreviventes dos anos livres e lindos vividos sem remorso e complexo de culpa. Todos que tiveram sua infância nessas épocas de paz interior podem e devem ser considerados como os felizardos. Hoje não se faz jovem como antigamente. A opção de vida era outra, com base numa cultura de proteção vigiada, que moldava todos adolescentes para enfrentar o que der e vier. O coroamento do fruto dos ensinamentos era quando chegava à hora de maior liberdade, o pai conversava com o filho e entregava a chave da porta da casa estabelecendo a hora do retorno. Qualquer descuido no cumprimento do horário desta ordem não escrita vinha o castigo que era ficar sem a chave que garantia o namoro até as nove e meia da noite. Somos do tempo que padre andava de batina e as velas no altar eram de cera com luz trêmula ao sabor da corrente do vento.

A ultima indagação que fica é como chegamos até aqui como personalidade forte? Com certeza éramos felizes no nosso tempo e não sabíamos. Não havia alienação pela ânsia compradora. E a pergunta é: será que os “desligados” serão cidadãos conscientes? Imagine nossa dificuldade para enfrentar as causas. Quanto era difícil colher resultados sob educação moral consolidada e conduzir nossas vidas de forma firme e ética neste mundo apelidado de moderno que tem as fronteiras etárias alargadas e notar que muitas jovens pensavam que continuariam a ser os eleitos do colo da mamãe. Bom é pensar que não existe jovem eterno. Portanto, todos nós envelhecemos querendo ou não, mesmo preservando o lado criança. Tudo depende da paz interior que se estabelece no tempo que é inexorável.

Convenhamos, tudo isso não significa conservadorismo, mas, com certeza é o legado das convenções que se descobre ao longo da existência, pois, somos o que fizemos e sabemos. É por isso que escrevemos sobre realidades, não como vimos, porém, como recordamos. Importante é o convívio social e a ordem familiar.

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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