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Idoso não é Velho

Humberto P. de Carvalho

 

Na historia do tempo nem tudo agrada, mas, sem alternativa, temos que apelar para os mais idosos e, quem sabe, pedir para administrarem a crescente população interiorana, sem esquecer que os jovens serão os donos do futuro. Juntos devem participar de tudo para melhorar o cotidiano, entre contendores invisíveis, vez que existe o culto à juventude. O fundamental é saber que o normal é tudo aquilo que está oculto. Vale uma escolha que venha a pensar no depois. Sempre existiu uma delicada linha entre a omissão e a intromissão. Precisamos é evitar cair no abismo de admiradores de si. É compreensível e sabido que a curiosidade só não é maior que o temor. A geração de 50 está envelhecendo, a de 30 não percebeu que está chegando ao fim. Mas, convenhamos, saudosismo é até bom de vez em quando. Não se pode é ultrapassar o limite crítico que é a razão da inteligência humana e encarar o tempo para enterrar certas lembranças que não voltam nunca mais. Afinal, ninguém é santo antes de deixar a Terra. O bem-estar exige disponibilidade para discutir ou lembrar a verdade no momento só seu que é medido não pelos números de vezes que respiramos, mas, pelos momentos nos quais sentimos perder o fôlego de tanto ri de felicidade quando se olha uma fotografia que nada mais é que um pedaço de papel para os outros. Também vale percorrer o firmamento acima da nossa cabeça e encontrar a poesia no piscar das estrelas. Pode ser auto-aceitação viver de sonhos, mas, convenhamos, vivemos na era da alegria e da tristeza, portanto, cada dia é uma dádiva sem ordem cronológica para recuar ou avançar.

Nós itiubenses somos privilegiados pela mãe natureza. O sol que brilha para todos, nasce uns minutos depois em nossa cidade, surgindo entre as serras que circundam a mesma. Aponta na serra da Pedra Montada e se põe na Serra do Cruzeiro, deixando para a lua percorrer a noite o seu caminho, com os mesmos minutos a menos. Lua que desde a antiguidade mostra suas manchas confundidas com vapores, embora tenha vales, crateras e sombras, onde muitos ainda enxergam a imagem de São Jorge e seu cavalo branco. Sempre haverá os que vivem de fantasias e os que se relacionam com os outros.

Muita idade é a credencial do ser idoso. Serve para quem tem a felicidade de gozar e espiar uma longa existência que faz parte entre o passado e o presente, que se alteram a cada instante. Futuro é outra conversa. É esperança ou plano que se moderniza com diálogos com as pessoas ativas, na certeza de que as rugas são produzidas pelos sorrisos e não pelas amarguras.

Velho e idoso são diferentes. O primeiro resmunga, lamenta e se esquece que é um privilegiado da sorte. O segundo nunca perde a esperança de ficar velho. Uma pessoa fica ultrapassada quando tem por hábito dizer o tempo que passou. Importante é sonhar, praticar esportes leves e não pensar em descansar em berço eterno. Idoso tem saudade dos bons tempos, enquanto o velho sofre só em pensar que tem de prestar contas ao Criador. Assim, o idoso passa o seu tempo e não chega à velhice.

Os filósofos acreditam que temos a idade que merecemos. É fato que duas pessoas com a mesma idade cronológica são diferentes e as diferenças do velho para o idoso estão para quem guardou no baú da vida as recordações que o fizeram feliz. Pouco importa se alterar o ano, o mês, o dia do nascimento. A idade aumenta sem o nosso consentimento. Bom é chegar à velhice sem esta fantasia.

Sonhar jovem ou idoso é alimentar o ego que deixamos correr por conta da vontade de acertar, sem machucar ninguém. Lembramos que nada pára no mundo para você e eu consertar um erro e é por isso que vale resgatar o passado para construir o futuro. Certo é que o idoso significa o elo entre o passado e futuro. O jovem com certeza é o salto do presente para o futuro.

Nunca é tarde para admirar os itiubenses idosos que combateram a seca que mata e esperam a chuva que não veio, com visão equilibrada da realidade aniquiladora, sem ressentimentos, para superar os tempos e experiências difíceis, sem assumir o tipo chorão e acusador, sem confiar em mistérios, crenças, símbolos, fantasias, lagrimas, medos de assombrações e das almas penadas. O homem e a mulher são criaturas em crises existenciais que aumentaram com as atitudes modernas, que estão substituindo o amor próprio pelo consumo das novidades materiais, que destroem os principais elos da ética, que levarão muito tempo para serem recuperados. Hoje a ética não é o forte em algumas camadas sociais nesta travessia da história, onde o desrespeito pode levar a lugar - nenhum. Importante é aprender com as surras da vida.

E, assim, o jovem deve entender que o idoso quando se expressa sabe que não quer ocupar o espaço dos outros, é somente por guardar o desejo de nunca ficar velho.

Todas as sociedades organizadas respeitam os mais idosos nas áreas de suas competências. Obedecem as regras que estão registradas nas leis e culturas para conter os abusos. Eles guardam confidências das lições da infância e da adolescência, sabendo utilizar os instintos da aprendizagem e não fogem das dificuldades, mesmo sabendo que não se deve ser criança a vida inteira. Sabem que a vida é única e os verdadeiros amigos e familiares estão conosco até o fim. Estes entes não devem ser confundidos com os heróis, pois, muitas vezes, esses não tiveram tempo de arrumar a mala para fugir da fatalidade.

Os integrantes da terceira-idade perdidos em pensamentos matinais, com o rosto triste e concentrado sobre os efeitos das rugas normais da idade, sempre estão voltados para as consultas rigorosas à consciência de que a vontade de viver suaviza os processos da decadência física que não se pode congelar no tempo. Outros tempos, outros desafios é o que se pode esperar.

Felizes são os que embarcam no bonde da história com pulso firme, força de caráter forjados e temperados com despreocupação por coisas vãs. É bom lembrar que já nascemos fazendo parte da história. Que todos nós nesta missão somos programados para ficarmos idosos. Podemos, também, chegar à velhice para transformar a passagem da trajetória em momentos para reflexão sadia e merecida. Pai e avô quando andam aborrecidos e aborrecendo alguém, talvez seja culpa dos filhos e netos que relegam os idosos ao seu silêncio obsequioso. É chagada a hora de encarar o assunto com carinho e atenção.

Erroneamente o idoso é retratado como um pensador crítico, com mentalidade puritana. Quando se sabe que o idoso sem arrogância, bem humorado pode e deve ser considerado com pessoa que não se esconde por trás de isolamentos fictícios e não brinca de ingrato. Este é um engano comparado a outro que diz que o adolescente vive só para o seu dia-a-dia e o idoso para o seu último estágio. O idoso não é o relicário de dogmas, simplesmente é o depositário da filosofia investigativa da vida, que vive em um processo de tentativas de erros e acertos, aliado a um pouco de sorte. Na verdade tudo tem a ver com o limitado comportamento da inteligência humana, com suas emoções, atitudes, elogios e afagos. O resto é arenga de velho e bravata de jovem.


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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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