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Um camandarobense em São Paulo

José Jorge Junqueira

 

 

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O ano era 1967, eu tinha 11 anos de idade, quando minha mãe resolveu me levar para São Paulo para ir morar com os meus tios que já estavam por lá fazia alguns anos. Tempos difíceis aqueles. Eu morava na Camandaroba. O açude estava quase seco, os peixes morrendo e a água já não era mais potável. Seca das brabas que já durava difíceis longos anos. A água para beber tínhamos que buscar muito longe, umas duas a três léguas distante de onde morávamos. Era uma época em que se lavava somente os pés para dormir.

Ir para São Paulo naqueles tempos era a certeza de um futuro melhor. Era o sonho de todas as crianças, jovens e adultos daquela época. Era uma festa quando um Camandarobense voltava de São Paulo para ver os parentes e se exibia orgulhoso na cidade com uma bela camisa “volta à lua”, um maravilhoso par de óculos escuro e um lindo radinho de pilha. Arrumava namorada no mesmo dia. Despertava inveja nos moradores que ficavam na cidade. O difícil era conseguir o dinheiro para pagar a passagem de ida. Minha mãe anunciou a minha viagem com um ano de antecedência. Foi aquela festa. As meninas da Camandaroba logo se achegaram querendo me namorar, menos as moradoras da ponta da banca que eram chamadas na época de orgulhosas. Para ajudar comprar a minha passagem eu vendi meu badogue (feito com a melhor furquilha de caatinha da região) meu pião, minhas bolinhas de gude, meu currupiu (feito com tampinha de garrafa e cordão) e minha cobiçada coleção de carteira de cigarro. Também passei a trabalhar como ajudante na confecção de adôbo (tijolo cru) e fazendo frete do açude para a feira da Camandaroba.

Difícil foi a despedida dos amigos. Tinha muitos, mas hoje só me recordo do Romildo Gomes, da família do João Gomes. Também me lembro dos filhos da Dna Ziza - Javan , Sitan, Natan, Jair e Eliude, mas estes em 1967 já tinham ido ajudar na construção de Brasília.

E finalmente chegou o dia da viagem. Fomos pegar o ônibus na Itiuba. Na mente um só pensamento: ganhar dinheiro em São Paulo e voltar para viver tranqüilo em minha terra. É claro que já saboreava a festa do retorno quando voltasse para visitar os amigos e a família.

Chegamos na Rodoviária do Braz em São Paulo. No bairro onde meu tio morava quase não tinha nordestino. Muitas crianças na minha idade. Quando cheguei, a meninada estava na temporada da brincadeira da bolinha de gude. Minha mãe comprou logo as minhas cinco bolinhas, todas grandes. Estranhei muito a forma dos paulistas brincarem. Enquanto na Camandaroba nós jogávamos a bolinha com a mão, em São Paulo eles jogavam com os dedos. Horrível!!! Não brincavam de buraco, passando a bolinha pelos três buracos, virando veneno e finalmente acertando e ganhando. A brincadeira era de triângulo, colocando várias bolinhas juntas e quem acertasse levava todas. Perdi as minhas bolinhas na primeira seção da brincadeira. Para mim acabou a temporada no primeiro dia. Perdi também o interesse porque não conseguia jogar com os dedos. E pensar que eu brincava toda a temporada na minha terra com apenas dez bolinhas. Um primo meu que nasceu em São Paulo chegava a perder ou ganhar até vinte bolinhas por dia.

Bom, mas tinha o futebol no campinho da praça perto de casa. Eu estava acostumado com bola de meia. Nunca tinha brincado com bola de plástico. Ai foi uma tragédia. Não me adaptei. Descobri que era perna de pau. Ainda bem que nesta época tinha o Pelé no auge e eu acabei me tornando um torcedor santista.

E para complicar minha vida eu não conseguia me entender com os colegas paulistanos. Quando algum deles me arreliava, eu xingava e caprichava nos maiores palavrões que conhecia: filho da gota serena, seu peste, tabaréu, corno, chibungo, filho de rapariga, que o papa figo te carregue, e o maior de todos: carbunclo do cão. Para minha surpresa eles rolavam de ri, achavam muita graça do meu vocabulário. Em compensação eu também ria muito quando eles me xingavam: pivete, maconheiro, vagabundo, maloqueiro. Nunca tinha ouvido falar tais palavras. Lembro-me de que faziam rodinha perto de mim e pediam que eu falasse alguma coisa. Gostavam quando eu falava: hoje tô arretado, vou me picar, vôte, óxente...

Eles não entendiam o que eu queria dizer quando perguntava se estavam mangando de mim. Em São Paulo a tradução para o verbo mangar é “gozar ou zombar”. Parecia que falávamos línguas diferentes.

Estranhei mesmo foi o alfabeto paulista. Na Camandaroba do meu tempo as letras do alfabeto que eu aprendi e falava era assim: a, b, c, d, é, fê, guê, h , i, Ji, lê, mê, nê, ó, p, q, rê, si, t, u, v, x , z. Em São Paulo, para minha surpresa, eles falavam algumas letras bem diferentes de nós na Bahia. O alfabeto dos paulistas era lido assim : a, b, c, d, ê, éfe, gê, h, i, jóta, éle, ême, êne, ô, p, q, érre, ésse, t, u v, x , z.

Achava ridículo eles puxarem o “r” e dizerem: porrrta, porrrtão. Nunca quis imitá-los. Era para mim muito esquisito ouvir eles falarem érre, no lugar de rê, ésse no lugar de si, éle, no lugar de lê, ême no lugar de mê e assim por diante. Foi uma luta reaprender o novo alfabeto.

Depois chegou a temporada da brincadeira com pipa ou quadrado, que na Bahia é conhecido como papagaio. Eles passavam vidro moído na linha da pipa e ficavam tentando derrubar o outro. Nunca tinha brincado assim e não achei graça nenhuma. Passei a temporada acompanhando as peripécias do meu primo.

Em seguida veio a temporada do pião. Pensei, agora sim vou poder brincar com estes pestes. Pura ilusão. Na nossa terra, a brincadeira era tentar rachar ou fazer buracos no pião do concorrente. Quando o pião morria sem sair da roda, o castigo era ficar recebendo bicadas sem poder se defender. A maior glória, o prazer dos prazeres era rachar o pião do adversário. Em São Paulo eles brincam valendo pião. Morreu sem sair da roda, perdia o pião para o último que conseguisse ficar. Ninguém se interessava em bicar ou rachar o pião do adversário. Deus me livre!!!. Meu primo perdia ou ganhava até cinco piões por dia. Não tive coragem de entrar na brincadeira. Na Camandaroba eu brincava a temporada toda com apenas um pião. E depois guardava para a próxima. Percebi que em São Paulo ninguém fazia malabarismo com o pião, do tipo colocar para rodar na palma da mão, no canto da unha do polegar ou jogar e aparar na mão, sem deixar cair no chão. Guardei o meu para brincar um dia quando voltasse na Bahia.

Como não chegava a temporada do currupiu, eu fiz um caprichado e sai mostrando a todos. Como era bom botar o currupiu para rodar em alta rotação e tentar cortar a linha do adversário. Claro que a meninada não gostou da novidade. Em São Paulo eles não conheciam corrupiu. Também não sabiam brincar de finca. Finca é brincado quando chove e a meninada sai nas ruas de terra com um pedaço de ferro fincando e puxando traços no chão para cercar o adversário. Que alegria indescritível eu sentia na Bahia quando andando pelas ruas achava no chão uma carteira de cigarros, daquelas que valiam muito. Em São Paulo a meninada daquele tempo não brincava de juntar carteira de cigarros, trocando as mais difíceis e cobiçadas por várias outras de menor valor.

Definitivamente comecei a perceber que não estava gostando de morar em São Paulo.

Quis chorar quando chegou o meu primeiro mês de junho. Ah! Que São João mais triste em São Paulo. Nenhuma fogueirinha nas casas. Ninguém nas ruas em volta das fogueiras soltando fogos, traques, busca-pé e rojão, chupando cana, brincando de espada, assando milho e batata doce, pulando e pisando nas brasas, esperando a árvore da fogueira cair para pegar pedaços de cana, e tantas outras coisas gostosas. Se não tinha fogueira, não tinha pau de sebo, não tinha banda de pife tocando, não tinha forró...

Passei a sentir muita, mas muita saudade de casa, da minha mãe, dos meus irmãos, dos meus amigos, dos meus conterrâneos. Sonhava nadando e pescando no açude da Camandaroba, passeando na ponta da banca e no tanque das nações na Itiuba, buscando água na cacimba do poço dos cachorros, chupando umbu azedo no pé, caçando bizunga de badogue, comendo azedinha, quebrando e comendo coco de licuri e brincando, brincando de todas as brincadeiras que eu tanto gostava.

Foi quando analisei seriamente a possibilidade de voltar para minha terra, minha querida Camandaroba. Mas como voltar, onde arrumar o dinheiro da passagem. E ai pensei na decepção dos familiares, dos amigos, quando chegasse de volta, sem trazer na bagagem uns presentinhos, um radinho de pilha... E o pior de tudo era enfrentar a grande decepção de ter fracassado em São Paulo.

Não, definitivamente não poderia voltar.

Então o ano de 1968 chegou, completei doze anos de idade, minha tia abençoada arrumou meu primeiro emprego, meu tio me matriculou num colégio público e eu passei a trabalhar de dia e estudar a noite. Não tinha mais tempo para brincar. Neste mesmo ano percebi com tristeza que não era mais criança.

Hoje, passados quase 40 anos, de vez em quando ainda sonho com as coisas que vi e vivi na minha querida Camandaroba.


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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

fpcarvalho@globo.com