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O Chulé do Sanfoneiro

Valmir Simões

 

Meu pai me contava como era sua vida de solteiro em Itiúba. Tocava trompete em uma filarmônica daquela época sem ganhar nenhum tostão, era festeiro e muito namorador. Um dos locais que mais freqüentava era a região do Alto Bonito, onde tinha algumas namoradas. Quem gostava de freqüentar o local, também, era meu tio Juca, seu irmão gêmeo, cuja incrível semelhança fazia com que, às vezes, as respectivas namoradas os confundissem. Certa vez meu pai “traçou” a namorada de meu tio com beijos e abraços e ela só descobriu depois, ocasionando uma confusão dos pecados. Meu tio, em outra oportunidade, descontou. Eles, entre si, faziam isto numa boa. Nas festas, nos arredores de Itiúba, um pagava a “bolsa” (ingresso) e o outro ficava de fora, daí a pouco os dois já estavam no salão, pois procuravam um jeito de confundir quem cobrava o ingresso. Existia, nos seus relatos, um Sanfoneiro por nome Belo que morava lá pras bandas do Alto Bonito que sempre fazia festas e quando se sentia cansado retirava o pé de dentro de um calçado que naquele tempo era conhecido como “Buziguim” e esfregava os dedos dos pés uns contra os outros de onde escorria um suor fétido que fazia com que ninguém conseguisse ficar no recinto. O zabumbeiro espanava para um lado, o pandeirista e os demais componentes para outros. Meu pai revelava que durante toda sua vida nunca sentiu um mau cheiro igual àquele que exalava dos pés do Belo que usava as meias com cores vivas parecendo uma cobra coral, deixando, porém, as pontas dos dedos do lado de fora. Acreditavam que era uma maneira usada por ele para afugentar os dançarinos do salão.

 

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Itiúba do meu Tempo - Fernando P. de Carvalho

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